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Fiocruz Amazônia publica terceira nota técnica sobre a situação epidemiológica do AM

O Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e o Observatório Fiocruz Covid-19 divulgam nesta terça-feira, 10/11, a terceira  nota técnica sobre o  comportamento da epidemia de Covid-19 no Amazonas, tendo como principal indicador a taxa de incidência dos casos notificados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), com enfoque nas macrorregiões do estado e regionais de saúde, até a quadragésima semana epidemiológica,  de acordo com dados do sistema Sivep-gripe da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS).

A nota técnica é resultado de análise  feita pelos pesquisadores Bernardino Albuquerque, Carlos Machado de Freitas, Christovam Barcellos, Daniel Antunes Maciel Villela, Fernando Herkrath, José Joaquín Carvajal Cortés, Leonardo Soares Bastos, Marcelo Ferreira da Costa Gomes, Margareth Crisóstomo Portela, Sérgio Luiz Bessa Luz e Valcler Rangel Fernandes, do ILMD/Fiocruz Amazônia e do Observatório Fiocruz Covid-19

O estudo mostra a evolução do processo epidêmico nos diferentes recortes espaciais, permitindo a elaboração de hipóteses para os diferentes comportamentos de curvas epidêmicas, oferecendo ainda evidências  de  sua continuidade a curto e a longo prazos.

Os pesquisadores alertam para a necessidade de ampliação da vigilância laboratorial para suporte à adequação dos serviços de saúde e à atenção aos pacientes portadores de SRAG, especialmente diante da aproximação do período de maior receptividade à circulação de vírus respiratórios, o inverno amazônico.

Leia a nota técnica na íntegra.

Com a nota, os pesquisadores reafirmam o compromisso da Fiocruz com a vida, com o Sistema Único de Saúde e com a saúde da população do Amazonas.

Ascom-ILMD/Fiocruz Amazônia

Estudo aponta que quatro cidades brasileiras somam mais de 22 mil mortes acima do esperado

As notificações diretamente atribuíveis à Covid-19  informam a ocorrência de mais de 74 mil mortes no Brasil. Em quase 5 meses após o surgimento dos primeiros casos no país, ainda é difícil apontar números precisos da mortalidade específica pela doença, diante das falhas da cobertura da vigilância laboratorial e epidemiológica.

Estudo feito por pesquisadores do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)  adotou modelo matemático para analisar o período de 23 de fevereiro a 13 de junho de 2020, tendo como base os anos de 2015 a 2019, para estimar as mortes esperadas.

Segundo a investigação, houve uma somatória de mais de 22 mil mortes excedentes durante a epidemia, em 4 capitais brasileiras: Rio de Janeiro,  São Paulo, Fortaleza e Manaus. Para a análise, foram utilizados dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e da Central de Informações do Registro Civil (CRC) Nacional, bem como relatórios epidemiológicos de secretarias de saúde.

Os pesquisadores observaram que o número de mortes excedentes variou ao longo do tempo, mas, em geral, os picos mais proeminentes de mortalidade ocorreram nos meses de abril e maio, especialmente em Manaus e Fortaleza. Embora, esse número tenha sido proporcionalmente menor em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

“Avaliar o excesso de mortes pode ser a única e mais viável forma de se mensurar rapidamente os impactos ou a severidade da crise sanitária e sua possível relação com a capacidade de resposta ao problema”, explica pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana.

Segundo o pesquisador, o indicador de mortalidade por causas naturais, utilizado na análise, representa o total de óbitos ocorridos em cada cidade, em certo intervalo de tempo e em indivíduos com 20 anos ou mais, excluindo as mortes não-naturais ou violentas, como acidentes de trânsito, suicídios e homicídios.

As cidades investigadas foram selecionadas especialmente porque concentravam nesse período, em torno de 35% de todas as mortes por Covid-19 notificadas no Brasil, e aproximadamente 67% de todas as mortes por Covid-19 notificadas pelas  27 capitais, até o fim da semana epidemiológica 24 (7 a 13 de junho).

MORTES EM MANAUS

Em estudo publicado em junho, os pesquisadores  analisaram a mortalidade em Manaus, no período entre a  11ª e a 16ª semana epidemiológica (de 15 de março a 25 de abril de 2020). Essa investigação apontou um  número explosivo de mortes na cidade em relação à anos anteriores, o que poderia indicar mortes causadas pela Covid-19, além de revelar a fragilidade dos serviços de saúde na cidade.

Saiba mais aqui.

Agora, os pesquisadores ampliaram a investigação para outras três capitais (Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo) para estimar quantas mortes excedentes aconteceram nessas cidades, sejam elas diretamente atribuídas à Covid-19 ou indiretamente.

“Em São Paulo, por exemplo, em torno de 28% das mortes excedentes não foram direta e oficialmente associadas à Covid-19. Neste caso, é possível que a proporção de subnotificações relativas à doença seja menor do que nas demais cidades. Por outro lado, em Manaus, o número de mortes excedentes pode ter sido 108% maior do que a quantidade atribuída direta e oficialmente à Covid-19. Em outras palavras, a chance de ampla subnotificação de mortes por Covid-19 parece ser bastante real, principalmente se lembrarmos que Manaus, entre as capitais com mais de 1,5 milhões de habitantes, é a única sem Serviço de Verificação de Óbito e, historicamente, com precária estrutura de vigilância epidemiológica. Não por acaso, a proporção de mortes no domicílio ou via pública em Manaus foi aproximadamente 100% maior em 2020, quando comparado a 2019. Um quantitativo aproximadamente três vezes maior do que o observado em São Paulo, no mesmo período. Em cidades como Rio de Janeiro e Fortaleza essa proporção também foi bastante elevada, sugerindo não só ampla subnotificação, como graves falhas no enfrentamento da epidemia”, revela o Jesem Orellana.

Ele alerta ainda que a análise das quatro capitais representa menos de 15% da população brasileira, e que se o estudo considerasse outras metrópoles e municípios, o excedente de mortes seria muito maior

“Na verdade, se a gente for pensar em Brasil, com 5000 e poucos municípios, esse número de mortes excedentes pode facilmente passar dos 100 mil e, nesses 100 mil, provavelmente, vamos ter muitos casos de Covid-19 que foram mal classificados. Essa estatística que estamos vendo hoje, de aproximadamente 74 mil mortes,  está aquém da realidade, o número de mortes do Brasil, pode ser muito maior”, comenta.

O pesquisador informa que seu grupo continua os estudos sobre essa temática e, em breve, serão publicadas novas análises.

 Acesse aqui o estudo Explosão da mortalidade no epicentro amazônico da epidemia de COVID-19

 ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Imagem: Mackesy Nascimento

Estudo identifica diferentes linhagens do novo coronavírus circulando no Amazonas

Três linhagens do novo coronavírus foram introduzidas no Amazonas, é o que aponta estudo do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) que investigou amostras dos municípios de Manacapuru, Autazes, Careiro e Manaquiri (Região Metropolitana), Santa Isabel do Rio Negro (Rio Negro), Tabatinga e Santo Antônio do Içá (Alto Solimões), e Manicoré (Rio Madeira), além da capital Manaus.

A investigação foi realizada pela equipe do pesquisador e vice-diretor de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, Felipe Naveca. Segundo ele, a existência das 3 linhagens  do SARS-CoV-2: A2; B1.1; B1, sugere ao menos 3 introduções do vírus no Estado.

Em Manaus foram identificadas as três linhagens. Em Manacapuru, Manaquiri e Manicoré a pesquisa encontrou 2 linhagens circulando, e nos demais municípios uma linhagem.

As linhagens achadas no Amazonas são frequentemente encontradas em amostras da Austrália, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

37 GENOMAS SEQUENCIADOS

O estudo de Epidemiologia Molecular do SARS-CoV-2 no Amazonas sequenciou 37 genomas do novo coronavírus. Felipe Naveca alerta para a importância desses dados, especialmente diante da escassez de informações sobre os vírus que causam síndromes respiratórias na população do Estado.

Em março deste ano Naveca concluiu o primeiro genoma SARS-CoV-2 do Norte do país. Agora, foram mais 36 sequenciamentos.

O sequenciamento dos genomas de amostras do SARS-CoV-2 contribuem para o desenvolvimento de vacinas e medicamentos contra o vírus. Os genomas identificados no Amazonas agora podem ser comparados a outros que circulam no Brasil e no mundo.

O estudo é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio da Rede Genômica em Saúde do Estado do Amazonas (Regesam).

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Imagem: Mackesy Nascimento

Pesquisa revela que desigualdades sociais contribuíram para o aumento explosivo de mortes em Manaus

Estudo aponta que a gravidade da epidemia de Covid-19 em Manaus e o elevado número de mortalidade têm suas raízes na grande desigualdade social, fraca efetividade de políticas públicas e fragilidade dos serviços de saúde na cidade.

Para a investigação foram usados dados de mortalidade oriundos da Central de Informações do Registro Civil (CRC) Nacional e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), durante a 11ª e a 16ª semana epidemiológica (período de 15 de março a 25 de abril de 2020), revela o pesquisador Jesem Orellana, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).

Ele adianta que apesar das incertezas sobre mortalidade específica por Covid-19 é possível estimar o impacto da epidemia indiretamente, mediante o indicador de mortalidade geral, que avalia o excesso de óbitos ou o número de mortes não esperadas na população.

Jesem Orellana

“Normalmente, o indicador de mortalidade geral, varia pouco ou quase nada em curto espaço de tempo. Somente em situações excepcionais como desastres naturais, guerras ou de crise sociossanitária pode haver repentina e sustentada variação no padrão de mortalidade da população. Portanto, em tempos de ampla disseminação do novo coronavírus, especialmente em contexto sociossanitário desfavorável, espera-se não só maciço contágio e adoecimento, como também elevado e atípico número de óbitos”, comenta o pesquisador.

Além da Covid-19, outras possíveis causas de mortes foram consideradas pela CRC, como síndrome respiratória aguda grave (SRAG); pneumonia; septicemia; e insuficiência respiratória. Os óbitos não classificados em nenhuma dessas condições foram incluídos na categoria “demais causas”. Por fim, as mortes “indeterminadas” (causas de mortes ligadas a doenças respiratórias, mas não conclusivas) que representaram menos de 1% da amostra avaliada e não foram apresentadas separadamente.

A análise mostrou uma similaridade entre o total de óbitos registrados em 2019 e 2018, ao longo das semanas selecionadas em março e abril. Porém, ao se fazer uma comparação entre o total de óbitos de 2020 e 2019, observou-se um excesso de mortalidade, a partir da 14ª semana epidemiológica de 2020 e uma explosão na 16ª semana na qual o número de óbitos foi 200% maior do que o observado em 2019.

O expressivo aumento de mortes a partir da 14ª semana, deu-se aproximadamente 15 dias após a confirmação dos 30 primeiros casos de Covid-19 em Manaus. Já o alarmante e inédito aumento do número de mortes na 16ª semana, coincidiu com o colapso da rede pública hospitalar, gerando um aumento três vezes maior de sepultamentos diários.

Nesse período, as mortes em casa e em via pública também aumentaram, bem como os casos de Covid-19 nos municípios vizinhos. Esse conjunto de acontecimentos resultou, provavelmente, de uma grande aceleração da epidemia em Manaus nas semanas anteriores, contribuindo para a consolidação de uma crise sociossanitária sem precedentes.

“Variações no indicador de mortalidade geral, em cenário de crise sociossanitária, não estão restritas  a países de baixa e média renda, pois um número excessivo de mortes, também foi observado em Nova York e outras cidades da Europa, especialmente na Itália e Espanha, reforçando que a subnotificação na mortalidade específica por Covid-19 tem ocorrido nos mais diferentes contextos e regiões do planeta”, observa o pesquisador.

O estudo também aponta ainda que em Manaus quase 70% das mortes ocorreram em pessoas com 60 anos ou mais, um dado semelhante aos mostrados em estudos realizados em outros países, e que confirmam que nesse segmento populacional, as comorbidades têm sido associadas com um prognóstico pior em casos de internação por Covid-19.

Outro dado que corrobora com outros estudos, diz respeito aos diferenciais por sexo, com risco de mortalidade maior entre os homens, e um aumento explosivo de mortalidade por problemas respiratórios, que são complicações comuns da Covid-19.

Para o pesquisador, “reforços devem ser envidados rapidamente por gestores das três esferas de governo de modo a conter ou minorar o efeito deletério da Covid-19 em Manaus, sobretudo em áreas mais precárias, onde o impacto da pandemia sobre a mortalidade tende a ser mais acentuado”, conclui Orellana.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Foto: Eduardo Gomes-ILMD/Fiocruz Amazônia
Imagem: Mackesy Nascimento

Estudo realizado em Manaus avaliou homicídios intencionais em mulheres, com enfoque em feminicídios

Saúde e violência contra mulher são temas que ainda temos muito que discutir com a sociedade e com organizações que defendem os direitos básicos das mulheres.

O Brasil é um dos campeões em mortes violentas, e nessa triste estatística entram os casos de feminicídios, onde 50% das mortes nesses casos são causadas por parceiros íntimos, companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Em estudo sobre o assunto, o pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Jesem Orellana, apurou que cerca de 50% dos assassinatos de mulheres no Brasil no ano de 2017, envolveram agressões por enforcamentos/estrangulamentos, queimaduras por chamas/fogo, facas, arma de fogo, pauladas e objetos contundentes, agressões físicas fatais e agressões sexuais por meio de força física. Há de se destacar que o montante de agressões por meio de armas de fogo, considerado no estudo, representa apenas 20% do total de agressões registradas por essas armas, no país.

O estudo abordou ainda os  homicídios intencionais de mulheres com enfoque nos feminicídios, em Manaus, nos anos de 2016/2017,  e apontou que cerca de 40% das mortes de mulheres maiores de 11 anos foram feminicídios, ou seja, a cada 10 homicídios de mulheres, em Manaus, nesse período, quatro foram feminicídios, e em torno de 30% e 20% das vítimas de homicídio, sofreram violência sexual e fizeram uso de álcool antes da agressão, respectivamente.

Outro dado identificado no estudo é que na Região Norte a ocorrência de feminicídio parece ser maior, comparando-se com outras regiões do país. Jesem Orellana explica que não se tem uma resposta exata para esse complexo fenômeno e receia que não seja possível determinar suas causas, diante da reduzida visibilidade dada ao assunto e à carência de informações qualificadas e de estudos compreensivos a respeito. “Mas, de modo geral, podemos supor que parte dessa explicação esteja associada ao patriarcado dominante e ao sentimento masculino de que a mulher é propriedade privada, algo que historicamente foi sedimentado na sociedade brasileira, especialmente naquelas em que alguns desses valores ainda são bastante difundidos e valorizados, como pode ser o caso da Região Norte do Brasil. Porém, é possível que esse fenômeno seja parcialmente influenciado pelos elevados padrões de violência urbana observados na região, que na maior parte das vezes, é superior aos padrões de regiões socioeconomicamente mais desenvolvidas”, explica.

Orellana alerta  ainda que até meados de 2018, no Amazonas, não havia nenhuma condenação por feminicídio. “Esta é uma triste realidade que assola não somente o Amazonas, mas outros Estados, e os motivos são diversos e podem incluir o subdimensionamento desse problema – feminicídio – e a lentidão da justiça, por exemplo. O subdimensionamento do problema, porque muitas mortes violentas de mulheres sequer chegam a ser investigadas, seja porque não há corpo ou porque nunca foram identificadas como mortes por razões de gênero. Nesses casos, não há como a polícia civil tomar conhecimento do crime e abrir uma investigação e um inquérito policial para, em seguida, caso ele não seja interrompido por falta de pessoal ou “provas”, possa fornecer elementos à tramitação desses casos, na justiça”.

MARÇO

No Brasil, o número de mortes de mulheres é aproximadamente cinco vezes menor que o de homens. Mas, a diferença que incomoda e requer reflexão, diz respeito a quem pratica o ato criminoso.

O pesquisador observa que trazer a violência contra a mulher para o rol de assuntos a serem discutidos no mês de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher (8/3) é oportuno e urgente, para dar maior visibilidade a um problema que carece de respostas efetivas da sociedade, do executivo, do legislativo e judiciário.

Vale ressaltar que com a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, e da Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015, feminicídio tornou-se crime hediondo.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Imagem: Mackesy Nascimento
Foto: Eduardo Gomes