Fiocruz Amazônia apresenta resultados parciais da pesquisa de vacina contra malária vívax no Japão

A vice-diretora de Pesquisa e Inovação e pesquisadora da Fiocruz Amazônia Stefanie Lopes, juntamente com a bolsista de pós-doutorado Camila Fabbri, do Laboratório de Diagnóstico e Controle de Doenças Infeciosas (DCDIA), participaram em Kanazawa, no Japão, da 92ª Reunião Anual da Sociedade Japonesa de Parasitologia que aconteceu na quinta e sexta-feira, 30 e 31/03. As pesquisadoras apresentaram no evento os resultados parciais dos estudos pré-clínicos para o desenvolvimento de vacina contra a malária vivax, que contam com financiamento do Fundo Global de Tecnologia Inovadora em Saúde (GHIT), do Japão. Segundo Stefanie Lopes, até aqui os estudos vêm apresentando resultados promissores no tocante ao efeito bloqueador da transmissão do parasita causador da doença.

As pesquisadoras foram convidadas a participar do evento devido à parceria que o grupo possui com a Universidade de Kanazawa, que coordena o desenvolvimento do projeto de pesquisa pré-clínica com financiamento do GHIT. Stefanie Lopes explica que serão apresentados no evento os resultados parciais do projeto, que deverá ser desenvolvido em dois anos. “Trata-se de uma reunião entre o grupo de pesquisadores e o financiador a fim de avaliar o status do desenvolvimento do projeto financiado, uma vez que completa um ano de atividades (metade do tempo total)”, afirma. A pesquisadora destaca que, na avaliação preliminar, a pesquisa demonstrou um elevado efeito da vacina produzida pelo grupo no desenvolvimento do parasita (Plasmodium vivax) no mosquito vetor da doença, o Anopheles, e, portanto, tendo um potencial efeito no bloqueio da transmissão da malária.

Ela ressalta ainda que o encontro oportunizou também discutir os próximos passos do projeto, necessários para o desenvolvimento da vacina para testes futuros em ensaios clínicos como a produção em maior escala e padrões de garantia de alta qualidade (GMP). Ressaltou, ainda, que a aproximação dos dois países parece bastante profícua e que vislumbra o aprimoramento deste e de novos estudos em parceria Japão/Brasil. “A oportunidade de estar aqui (no Japão) foi importante para este estreitamento das relações internacionais”, salientou.

O desenvolvimento da pesquisa vem sendo executado pelo ILMD/Fiocruz Amazônia, em parceria com a Fundação de Medicina Tropical (FMT). A pesquisa é coordenada pelo pesquisador Shigeto Yoshida, da Universidade de Kanazawa, e conta como parceiros as universidades de Hokkaido, Kyoto, Toyama e Jichi Medical University, do Japão, e a Universidade de Cambridge, do Reino Unido.

A vice-diretora de Pesquisa e Inovação explica que a Fiocruz Amazônia conta com uma plataforma voltada à realização de ensaios para testagem de substâncias, bem como novas formulações vacinais para a malária causada pelo Plasmodium vivax. “Esta plataforma pode avaliar atividade antimalárica ex vivo contra estágio sanguíneo do parasita, assim como a atividade no bloqueio da transmissão do parasita ao vetor em ensaios in vivo através da infecção experimental de Anopheles colonizados”, afirmou Stefanie. No futuro próximo, a pesquisadora deverá também incrementar a plataforma com o ensaio in vitro contra o estágio hepático do parasita, que está em fase de validação.

O estabelecimento deste último ensaio contou com o apoio da Medicines for Malaria Venture (MMV) e Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Amazonas (Fapeam). “É um trabalho de suma importância, visto que um dos grandes gargalos para o controle da malária vivax reside na existência de um estágio latente no fígado, o hipnozoito, que é responsável pelo reaparecimento da doença sem a necessidade de uma nova picada do mosquito infectado”, salienta, acrescentando que os medicamentos disponíveis para atacar este estágio do parasita, a primaquina, e o seu substituto em dose única, a tafenoquina, não podem ser utilizados amplamente devido aos seus efeitos colaterais em determinadas pessoas, como gestantes e deficientes em G6PD. “Portanto, a busca por novas substâncias com este potencial se faz necessária”, frisa.

PLASMODIUM

O Plasmodium vivax é responsável pela maioria dos casos da doença no Brasil e devido à ausência de uma cultura estável a longo prazo, ensaios como estes da plataforma da Fiocruz Amazônia só podem ser realizados em áreas endêmicas da doença pois dependem da coleta de sangue de voluntários com a doença. Para a cientista, o incentivo às pesquisas é de fundamental importância não só para o Brasil como os demais países onde ocorrem casos da doença.