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Fiocruz vai coordenar projeto da Unitaid em doença de Chagas

O Consórcio Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) foi selecionado na primeira fase do edital da Unitaid que visa a eliminação da transmissão congênita da doença de Chagas em países endêmicos da América Latina. A iniciativa visa ampliar a conscientização sobre a doença e atender a demanda de novas ferramentas para diagnósticos e estratégias terapêuticas, tendo como foco a redução da transmissão materno-infantil, considerada uma das principais vias de infecção da doença em todo o mundo.

Coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o projeto Consórcio Chagas – Rumo à eliminação da transmissão congênita da doença de Chagas conta com a parceria de outras unidades da Fundação, universidades brasileiras (UFC, UFF, UFRJ, UFBA, UFMG), além do Ministérios da Saúde e de organizações não governamentais.

Com atividades previstas na Bolívia, no Brasil, na Colômbia e no Paraguai, o consórcio atuará durante quatro anos concentrando suas ações em dois eixos: o primeiro prevê a realização de uma pesquisa de implementação em municípios-alvo dos quatro países participantes, projetada para melhorar o acesso e a demanda por serviços existentes voltados para a doença de Chagas; e o segundo busca desenvolver ferramentas de diagnóstico e tratamentos inovadores para combater a doença.

“Atualmente, estamos vivendo tempos muito difíceis com a pandemia da Covid-19, mas é crucial que não deixemos de lado as outras doenças, especialmente as endêmicas em nossos países, que afetam as populações mais pobres e mais marginalizadas. Não podemos permitir que o diagnóstico seja adiado e que os tratamentos sejam interrompidos, como está acontecendo em muitos países. Este edital mostra que há uma atenção global crescente e um compromisso do país em combater a doença de Chagas e ajudar a trazer a melhor ciência para as populações negligenciadas”, destacou a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima. “Temos certeza de que esse projeto será muito bem-sucedido e, com sorte, poderemos ampliar as melhores práticas para outros países endêmicos da América Latina”.

Para a investigadora principal do Consórcio Chagas e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas do INI/Fiocruz, Andréa Silvestre, a doença de Chagas vem vivenciando um momento histórico em todo o mundo, com o aporte de novos investimentos, resultado da disseminação de editais pelas agências de fomento. “Acreditamos que com o nosso ensaio clínico e o desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas será possível alcançar o objetivo final do projeto proposto pela Unitaid, que é a eliminação da transmissão congênita da doença que tanto atinge a América Latina”, destacou.

Para o desenvolvimento das atividades propostas, o Consórcio vai realizar um estudo sobre o conhecimento, atitudes, práticas e percepções das pessoas afetadas pela doença de Chagas, suas comunidades e profissionais de saúde, e compreender as diferentes dimensões da vulnerabilidade nos locais de implementação do projeto. Além disso, um ensaio clínico internacional, randomizado e multicêntrico, envolvendo 1.200 pacientes, sendo 300 de cada país, terá como objetivo apoiar mudanças nas diretrizes das políticas nacionais e no tratamento ministrado. Espera-se que este ensaio clínico encontre um novo regime que seja tão eficaz quanto o padrão (atualmente o medicamento utilizado para o tratamento da doença é o benznidazol), mas superior em termos de segurança do paciente. Paralelamente, novas ferramentas de diagnóstico para a doença de Chagas crônica e congênita serão avaliadas pelo grupo.

CONSÓRCIO CHAGAS

Coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), o Consórcio Chagas na Fiocruz reúne pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Casa de Oswaldo Cruz (COC), do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia), do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas) e do Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná); e tem como parceiros internacionais o Instituto Nacional de Laboratorios de Salud (Inlasa), da Bolívia, o Instituto Nacional de Salud (INS), da Colômbia, e o Servicio Nacional de Erradicación del Paludismo (Senepa), do Paraguai, além das iniciativas Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi) e Latin America e Foundation for Innovative New Diagnostics (FIND).

UNITAID

A Unitaid é uma iniciativa global de saúde que trabalha com diversas parcerias na busca por inovações para prevenir, diagnosticar e tratar doenças importantes de forma mais acessível, eficaz e rápida, em países de baixa e média renda, com ênfase na tuberculose, malária e HIV/Aids, entre outras, proporcionando assim um melhor acesso aos serviços de saúde para as populações que mais necessitam. De forma inovadora, pela primeira vez a entidade lançou um edital voltado para a doença de Chagas e América Latina.

DOENÇA DE CHAGAS

A doença de Chagas é uma doença infecciosa febril causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, cujos vetores são os triatomíneos, insetos conhecidos como barbeiros ou bicudos. A doença se apresenta clinicamente em duas fases distintas (aguda e crônica), sendo endêmica em 21 países das Américas. Afeta cerca de seis milhões de pessoas, com incidência anual de 30 mil casos novos na região, ocasionando em média 14 mil mortes por ano e oito mil recém-nascidos infectados durante a gestação. A estimativa é de que cerca de 70 milhões de pessoas vivam em áreas de exposição e corram risco de contrair a doença.

No Brasil, a estimativa é de que pelo menos um milhão de pessoas tenha sido infectada, em algum momento da vida, pelo protozoário T. cruzi. Em 10 anos (2008 a 2017), foram registrados 46.568 óbitos tendo como causa básica a doença, sendo 4.543 destes só em 2017.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2019, ocorreram 380 casos da doença de Chagas aguda no Brasil, sendo 92% das ocorrências na região Norte do país, principalmente no estado do Pará (290). A incidência da doença aguda foi de 0,18 casos para cada 100 mil habitantes.

Antonio Fuchs e Juana Portugal (INI/Fiocruz), com informações do Ministério da Saúde (MS)

Dia Mundial de Doença de Chagas mostra protagonismo da Fiocruz

111 anos depois do primeiro diagnóstico humano, a doença de Chagas ainda infecta cerca de 7 milhões de pessoas no mundo e entre 2 a 3 milhões no Brasil. Nesta terça-feira (14/4), será realizado pela primeira vez o Dia Mundial da Doença de Chagas. Instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a data, que contaria com diversas atividades no Brasil e no mundo, será lembrada pela Fiocruz apenas de forma virtual, tendo em vista a pandemia do novo coronavírus. A Fundação divulga depoimentos de autoridades sobre a importância da luta contra a doença, como o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom; a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima; a representante permanente do Brasil junto às Nações Unidas em Genebra, Maria Nazareth Azevedo; e a presidente da Associação Rio Chagas, Josefa de Oliveira Silva. Junto a essas intervenções, a Fiocruz também homenageia em vídeo quatro cientistas da instituição, que há décadas pesquisam a enfermidade e que deram grandes contribuições contra a doença de Chagas: José Rodrigues Coura (Instituto Oswaldo Cruz), João Carlos Pinto Dias (Fiocruz Minas) e o casal Zilton e Sonia Andrade (Fiocruz Bahia). Outro destaque será a iluminação em marrom e verde do Castelo Mourisco da Fundação em alusão à data.

 “Tudo será mais simples devido à Covid-19. Antes da pandemia tínhamos até a expectativa de que o diretor-geral da OMS pudesse comparecer à Fiocruz, mas isso se tornou inviável. Mas é muito importante salientar que este evento visa, primordialmente, dar visibilidade aos pacientes de doença de Chagas, que é uma das mais negligenciadas do mundo”, afirma o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS/Fiocruz), Marco Aurelio Krieger. Segundo ele, a data foi proposta pelo Brasil à OMS e acatada em reunião ocorrida em 2019, à qual estava presente a presidente Nísia Trindade. “A sugestão contou com total apoio da diplomacia brasileira e do Ministério da Saúde e também aponta para o reconhecimento que a Fiocruz tem por conta de ter sido a casa de Carlos Chagas”, comenta o vice-presidente. Foi o pesquisador Carlos Chagas, do então Instituto Oswaldo Cruz (embrião da atual Fiocruz) quem, em 1909, descobriu o protozoário Trypanosoma cruzi e, em um feito único no mundo, descreveu completamente o ciclo da doença: o patógeno, o vetor, os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.

Krieger acrescenta que este é também o momento de ressaltar iniciativas inovadoras da Fiocruz nesse campo, como o sistema de testagem rápida e novos protocolos de medicamentos, desenvolvido com a iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas. Ele também citou o estudo clínico feito com a Novartis, que busca medir os efeitos de medicação para insuficiência cardíaca em pacientes com cardiopatia chagásica, a forma crônica da doença que afeta o coração de 30% dos infectados anos depois do primeiro contato com o parasita. Essa pesquisa visa chegar a uma nova droga que possa ser administrada em pacientes que tenham as formas cardíacas da doença de Chagas, de maneira a obter resultados mais eficazes. Krieger destaca ainda a liderança do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) nos novos estudos clínicos sobre a enfermidade que estão sendo elaborados na Fundação.

Para o vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Rodrigo Correa, é importante que datas como essa realcem a importancia de atuar no cuidado com os pacientes. “Precisamos monitorar casos em regiões remotas. É fundamental recordar e alertar que a doença de Chagas não acabou e continua fazendo vítimas. A doença permanece entre nós. E as novas áreas de transmissão afetam, sobretudo, as populações mais pobres”.

Um dos fundadores (e primeiro coordenador), nos anos 1990, do Programa de Pesquisa Translacional em Doença de Chagas (Fio-Chagas), Correa diz que a Fiocruz mantém um olhar para o todo: o diagnóstico, o vetor, o paciente, os medicamentos, a pesquisa, o tratamento. “O Fio-Chagas reúne pesquisadores e grupos de pesquisa que lidam com a doença. É uma rede nacional e muito atuante, que abrange cientistas do Rio e de unidades regionais da Fiocruz. Pode-se dizer que é uma rede única no mundo”, diz o vice-presidente, referindo-se às características singulares da Fundação e ao papel de protagonista que a Fiocruz tem no estudo da doença de Chagas.

Agência Fiocruz de Notícias, Ricardo Valverde
Imagem: Acervo Fiocruz