Fiocruz Amazônia aborda desafios da pesquisa e dos programas de pós-graduação diante das mudanças climáticas na abertura do ano letivo
O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) abriu o ano letivo 2026 lançando o desafio de reflexão sobre as diferentes formas de conexão entre saúde e ambiente na Amazônia, neste que é o maior laboratório vivo do mundo, a floresta amazônica. A discussão foi a tônica da palestra da pesquisadora sênior da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Sandra Hacon, que proferiu a aula inaugural da instituição, no último dia 5/03, para uma plateia formada por novos alunos ingressantes e veteranos dos programas de pós-graduação, além de docentes e coordenadores, abrindo oficialmente o ano letivo. Cientista com formação em Biologia e atuação na área de avaliação de riscos à saúde humana, ecotoxicologia e avaliação de impactos à saúde das mudanças climáticas e grandes empreendimentos, Sandra há 25 anos se dedica ao estudo da conectividade entre saúde e ambiente.

Segundo Hacon, a política de adaptação do Sistema Único de Saúde brasileiro às mudanças climáticas à Saúde (AdaptaSUS), lançada durante a COP 30, em Belém, é um avanço importante. “A Amazônia possui vulnerabilidades e é preciso que os cursos de pós-graduação fomentem essa discussão e passem a atuar de forma integrada as questões ligadas à saúde e às mudanças climáticas”, afirmou, lembrando que o assunto vem sendo objeto de discussão desde a primeira reunião da ONU sobre o clima em 1972, quando propuseram o congelamento do desenvolvimento tecnológico por conta dos impactos ambientais que ele produz, mas não houve acordo. “É preciso reconhecer que a questão da saúde ficou adormecida. De lá pra cá, ocorreram mutas discussões e foram produzidos relatórios fantásticos, mas somente a partir de 2007, o tema passou a ser incorporado ao debate”, lembrou.

A mesa de abertura da Aula Inaugural contou com a presença da diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, do diretor técnico-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), Hedinaldo Narciso Lima (na oportunidade, representando a diretora-presidente da instituição, Márcia Perales), do vice-diretor de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz Amazônia, Claudio Peixoto e da representante da Associação dos Pós-Graduandos da Fiocruz Amazônia, Ellen Sabrina dos Reis Martins. A solenidade foi prestigiada também pelas presenças do diretor da ENSP/Fiocruz, Marco Antônio Carneiro Menezes, acompanhado do vice-diretor de Educação, Gideon Borges dos Santos, e a coordenadora de Pesquisa do Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Andrea Sobral de Almeida. Os alunos receberam as boas vindas também da vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, e da pesquisadora da ENSP, Enirtes Melo.

A diretora Stefanie Lopes fez a saudação aos alunos lembrando a importância da pós-graduação para a vida de cada um deles. “A pós-graduação é um período desafiador e uma das fases mais enriquecedoras da vida acadêmica e neste processo a troca intelectual permite o avanço do conhecimento e seu impacto real na sociedade. Assim, a cada ano letivo, renovamos o compromisso com o debate, com as pesquisas inovadoras e o espírito colaborativo que fazem dessa experiência única e inovadora”, afirmou. A diretora destacou também a relevância do papel e do ingresso das mulheres nesse mundo acadêmico como forma de trazer mais evidência e força para o combate à violência contra as mulheres. “Precisamos empoderar mulheres nos espaços e, neste mês de março, tão simbólico, a agenda é de todos”, ressaltou.

Stefanie sublinhou também a contribuição fundamental das instituições parceiras, a exemplo da Fapeam e da ENSP Fiocruz. “A ENSP foi essencial para essa casa formar doutores e para o processo de amadurecimento dos programas de pós-graduação que oferecemos, formando quadros. Hoje, temos pernas próprias, mas nunca estamos sozinhos. As parcerias são necessárias para superar os desafios colocados no dia a dia. Como resultado, temos o PPGVIDA e o PPGBIO-Interação há dez anos titulando, cada vez mais fortalecidos com o apoio da Fapeam, que é parceira dos estudantes e da instituição, nos apoiando desde a Iniciação Cientifica até os pesquisadores visitantes sênior. Importante que vocês estejam prontos para o cenário da pesquisa do amanhã, para os processos educacionais que precisamos continuar e o desafio de repensar as estruturas das ciências. A ciência e o Mundo se movem cada vez mais rápidos, sejam questionadores. Bom início de ano letivo a todos”, finalizou.
Hedinaldo Lima enfatizou que é motivo de orgulho para a Fapeam apoiar os programas de pós-graduação, por meio da concessão de bolsas de estudos, e poder contribuir para os excelentes resultados nas avaliações. “Percebemos esse avanço e, para a Fapeam, isso é motivo de alegria, fruto do investimento e do trabalho, não apenas uma questão do avanço no conceito, mas um avanço com soluções de problemas por meio das teses e dissertações. Estamos com diversos editais de pesquisa abertos e aguardamos mais concorrentes. Desejamos a todos aqueles que estão vindo e chegando ao Mestrado e Doutorado da Fiocruz Amazônia que estabeleçam bons desafios nos seus trabalhos de pesquisa e que consigam resultados que sejam revertidos em soluções para problemáticas do Amazonas e do País”, salientou.

Claudio Peixoto frisou que Pesquisa, Educação e Comunicação em saúde são os pilares da Fiocruz que propiciam o desenvolvimento de ideias para melhoria das condições de vida e situações de saúde na Amazônia. “Nosso trabalho possui um impacto social muito grande dentro da formação superior em saúde na Amazônia e é um prazer recebê-los para essa jornada nesta casa”, finalizou.
DESAFIO FUTURO
Durante a Aula Inaugural, Sandra Hacon enumerou desafios futuros que podem servir como norteadores para projetos de pesquisa na Amazônia. “A nova abordagem é pensar e agir de forma transdisciplinar, buscando integrar os determinantes sociais de saúde aos impactos da crise climática. Qualidade da água, incêndios florestais, arboviroses, insegurança alimentar são grandes desafios para nós”, observou, lembrando cada vez mais as políticas públicas exigem evidências científicas para embasá-las. “A abordagem ecossistêmica está passando por essa transição, com ênfase nos determinantes sociais da saúde, nas diferentes dimensões. Populações tradicionais, ribeirinhos, quilombolas. A saúde planetária depende desse olhar diferenciado”, mencionou.
A abordagem ecossistêmica é uma estratégia de gestão integrada da terra, água e recursos vivos que promove a conservação e o uso sustentável de forma equitativa. Ela reconhece os seres humanos como componentes essenciais, equilibrando saúde humana, ecológica e econômica, focando nas interações entre organismos e ambiente, e não apenas em espécies isoladas.
ILMD/Fiocruz Amazônia, Por Júlio Pedrosa
Fotos: Júlio Pedrosa / Fiocruz Amazônia


