Rede Vigifeminicídio disponibiliza manual que sistematiza e patroniza processo de captura de dados sobre assassinatos de mulheres
A Fiocruz Amazônia passa a disponibilizar de forma gratuita o acesso à versão digital do Manual de Uso do Vigifeminicídio – Padronizando e Sistematizando a Captura e o Armazenamento Inteligente de Dados sobre Assassinatos Femininos. Para acessar, basta fazer o download da publicação. O Manual é a referência da estratégia de atuação da Rede de Observatórios de Vigilância Digital e Prevenção ao Feminicídio, coordenada pelo epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana. Com 150 páginas, a publicação tem por finalidade sistematizar e padronizar o processo de captura, coleta e armazenamento de dados, garantindo transparência, consistência e reprodutibilidade ao processo de coleta de dados sobre assassinatos femininos da estratégia Vigifeminicídio.
De acordo com Jesem Orellana, o Manual foi desenvolvido por trabalhadores de saúde (não necessariamente profissionais de saúde), com nível superior, que atuam na produção ou aperfeiçoamento de estatísticas vitais, em particular de dados de mortalidade associados a eventos violentos, tal como os assassinatos femininos. “O Manual é fruto de aproximadamente três anos de compilação de dados, com consulta e extração criteriosa de dados, a partir de milhares de reportagens, dados oficiais de mortalidade, bem como da segurança pública e judiciário”, explica Orellana, destacando que, assim como o Manual, a Rede Vigifeminicidio, também disponibilizou à sociedade o acesso ao Sistema FemiBOT, ferramenta digital que permite ao usuário comum (qualquer pessoa com acesso a internet) acessar diretamente dados qualificados e atuais acerca de assassinatos femininos. O FemiBOT, na realidade, é um sistema mais abrangente, com sete módulos. No entanto, esse acesso mais amplo é de acesso exclusivo da equipe responsável pelo gerenciamento dos dados.
A criação do sistema foi anunciada durante a realização do 1º Seminário Amazônico sobre Vigilância Inteligente do Feminicídio, promovido no dia 6/03, na sede da Fiocruz Amazônia, em Manaus, envolvendo as quatro capitais da Amazônia ocidental (Porto Velho, Rio Branco, Boa Vista e Manaus) e uma frente carioca que monitora os assassinatos femininos no Rio de Janeiro, além de autoridades e especialistas no tema da violência contra a mulher de todo o País.
“A Rede Vigifeminicídio é um projeto multicêntrico denominado “Monitoramento epidemiológico e espaço-temporal da mortalidade por agressão e do feminicídio: vigilância da informação e equidade de gênero”. O objetivo é desenvolver recursos computacionais, aperfeiçoar e popularizar estratégia de monitoramento epidemiológico e espaço-temporal dos feminicídios, mediante recursos da vigilância digital inteligente, visando a equidade de gênero e o fortalecimento do enfrentamento intersetorial da violência contra mulher, em linha com o histórico Decreto Nº 12.145 disseminado em 11-fev-2026 no Diário Oficial da União e que, na prática, propõe a integração entre a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) e o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela ministra das Mulheres, Márcia Lopes”, informa o Manual, na Mensagem da Coordenação.
E continua: “Este manual resulta de uma experiência de amadurecimento metodológico iniciada em 2017, a qual passou de uma modesta estratégia de análise de assassinatos femininos, baseada em raspagem de dados manualmente na internet, inspeção visual de jornais/tabloides impressos de Manaus e integração com dados oficiais de mortalidade, anonimizados, com classificação independente por criminalistas, para um projeto que hoje cobre todas as capitais da Amazônia Ocidental (Porto Velho-RO; Rio Branco-AC; Manaus-AM; e Boa Vista-RR), alcançando cerca de metade da população de mulheres maiores de nove (9) anos desses quatro estados e usando modernos recursos computacionais à captura de dados, incluindo busca automatizada de notícias mediante motor de busca especialmente desenhado para o Vigifeminicídio, o FemiBot, por exemplo”.
Atualmente, o Vigifeminicídio conta com espaço físico próprio nas dependências do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), incluindo tablets, computadores e um servidor, exclusivamente dedicado ao armazenamento de dados sensíveis do Vigifeminicídio. Ademais, os dados de Manaus-AM e Porto Velho-RO, configuram como as mais longas (2016-2025) e abrangentes (82 variáveis sobre a vitimização letal) séries históricas de feminicídios entre as capitais brasileiras que temos conhecimento, permitindo análises inéditas e estimações com elevado potencial não apenas de contribuírem ao aperfeiçoamento de políticas públicas focadas na redução da violência contra a mulher, como também, uma interessante oportunidade de qualificação dos dados oficiais de mortalidade nas cidades/estados parceiros.
Por fim, a Coordenação esclarece que o manual de uso reúne e sintetiza, em um só documento, anos de experiência acumulada com a captura, tratamento e análise de dados sobre assassinatos femininos, com instruções detalhadas acerca da coleta/captura manual de dados na “internet” (mineração de dados), tanto da imprensa online, geográficos e de autarquias dedicadas ao problema como as secretarias de segurança pública, tribunais de justiça e órgãos de controle como o Ministério Público estadual. Há também orientações personalizadas ao processo de integração dos dados oficiais de mortalidade das secretarias estaduais de saúde ao projeto, bem como de uso e manuseio do sistema/aplicação voltada à coleta, armazenamento e processamento de dados automatizado, o FemiBot.
ILMD Fiocruz Amazônia, Por Júlio Pedrosa
Foto: Júlio Pedrosa, ILMD Fiocruz Amazônia
Ilustração da Capa: Mackesy Nascimento, ILMD Fiocruz Amazônia



