Fiocruz Amazônia e Universidade da Pensilvânia estreitam laços para possíveis cooperações futuras visando intervir nas dinâmicas de saúde em comunidades rurais ribeirinhas do Amazonas
O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) recebeu, no último dia 30/03, a visita do professor e pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), William Laufer, diretor do Centro Carol e Lawrence Zicklin para Governança e Ética Empresarial da instituição de ensino norte-americana. O objetivo da visita foi dar início às tratativas para cooperações futuras que permitam a realização de estudos integrados e territorializados acerca das dinâmicas de saúde na Amazônia, com base na expertise da Fiocruz no desenvolvimento de projetos de pesquisa na região. Laufer foi recebido pela diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, juntamente com a vice-diretora de Pesquisa e Inovação, Michele Rocha El-Kadri, o vice-diretor de Educação, Informação e Comunicação, Cláudio Peixoto, e a pesquisadora tecnóloga Luciete Almeida, do Laboratório de Diversidade Microbiana com Importância para a Saúde (DMAIS).
Acompanhado pelo professor Eduardo Saad Diniz, consultor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), o pesquisador conheceu, juntamente com a equipe da Fiocruz Amazônia, a comunidade ribeirinha do São Francisco do Mainã, localizada no Puraquequara, Zona Leste de Manaus. A localidade fica situada em área de transição, entre o meio urbano e rural, às margens do lago do mesmo nome. Na comunidade, a Fiocruz Amazônia desenvolve estudos relativos ao monitoramento da qualidade da água, no âmbito do trabalho desenvolvido pela pesquisadora Luciete Almeida, voltado à Educação Ambiental em comunidades rurais do Estado do Amazonas, com foco especial para os riscos de contaminação por matéria orgânica da água consumida pelos moradores.

“Em análises recentes, feitas na comunidade do Mainã, foram identificados fatores de risco que podiam estar influenciando no adoecimento dos comunitários. Fizemos coleta da água de um dos poços utilizados pela comunidade e os resultados foram positivos para contaminação por coliformes fecais e totais, o que acendeu o alerta para o risco de surtos de doenças de veiculação hídrica, a exemplo de diarreia, que acometeu recentemente a comunidade”, explicou Luciete. Segundo a bióloga, a partir do laudo emitido pela Fiocruz, os moradores se mobilizaram para buscar alternativas de solução no sentido de melhorar a qualidade da água consumida na comunidade. Uma das medidas foi a perfuração de um novo poço artesiano, que teve amostras de água coletadas para novas análises.

“Esse tipo de trabalho realizado pela Fiocruz em comunidades ribeirinhas da Amazônia é de total interesse para a área de atuação do centro de pesquisa dirigido pelo Doutor William Laufer, razão pela qual viemos conhecer a Fiocruz e o trabalho feito em parceria com as comunidades, visando estabelecer possíveis parcerias entre o centro de pesquisa da Universidade da Pensilvânia e a Fiocruz Amazônia”, afirma Eduardo Diniz, citando também a expertise da instituição na formação de agentes comunitários de saúde, cuja presença na comunidades produz impacto na dinâmica social com relação diversos indicadores, entre os quais os da marginalização, da violência e da degradação socioambiental, elevando os níveis de resiliência comunitária.

“O trabalho desenvolvido pela Fiocruz é extraordinário, porque melhora a qualidade de vida das pessoas. Imagina chegar numa escola e ver crianças tomando água contaminada. O que esperar para o seu futuro?”, observa Eduardo, acrescentando que é intenção da Universidade da Pensilvânia (EUA) viabilizar parcerias destinadas ao financiamento de intervenções socioambientais voltadas exatamente à melhoria da situação de vida e bem-estar de comunidades ribeirinhas.
Para a diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, a perspectiva de parceria com a Universidade da Pensilvânia abre um leque de oportunidades de atuação. “Viemos aqui, na comunidade São Francisco do Mainã, para darmos uma mostra ao Doutor William Laufer, da Universidade da Pensilvânia, do que é a realidade das comunidades rurais no território líquido amazônico, estreitando parcerias para a realização de estudos mais integrados e territorializados das dinâmicas de saúde na Amazônia e em especial nas áreas de fronteiras”, salientou. A diretora apresentou também ao pesquisador um panorama atual da projetos desenvolvidos pela Fiocruz Amazônia, em especial no Estado do Amazonas, e a intenção de aprofundar o direcionamento do foco das pesquisas para os desafios da saúde e do clima, como forma de contribuir de efetivamente para a formulação de políticas públicas que beneficiem as populações vulnerabilizadas amazônicas.

“Conhecemos aqui alguns problemas vivenciados por uma comunidade rural na Amazônia, onde temos estudos relacionados à qualidade da água. Nossa intenção é fazer uma integração, uma ciência participativa e acolhedora junto aos comunitários entendendo quais são as reais problemáticas para que possamos planejar e promover intervenções que sejam efetivas para a melhoria da situação de vida e bem-estar dessas comunidades”, frisou. A visita contou com a participação de representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), organização social que luta pelos direitos das populações afetadas pela construção de hidrelétricas, barragens de mineração e outros projetos de infraestrutura que causam impactos socioambientais na região.
Para os comunitários, a atuação da Fiocruz Amazônia foi fundamental para melhoria da saúde na comunidade. Atualmente, residem na área 61 famílias, a maioria sobrevivendo da pesca e agricultura nas terras que são cedidas pela União. “Descobrimos que a água, que é fundamental para nossa vida, estava imprópria para beber. A Fiocruz nos ajudou com orientação sobre como tratar a água e, com o laudo que atestava a contaminação da água, pudemos reivindicar da prefeitura a perfuração de outro poço na comunidade. Aqui enfrentamos problemas na cheia com a contaminação do solo, e na seca sofremos com a falta de água e dos peixes”, afirmou o líder comunitário Francisco Mateus da Silva.
ILMD/Fiocruz Amazônia, por Júlio Pedrosa
Fotos: Júlio Pedrosa / Fiocruz Amazônia


