Primeira travesti Doutora pela UFAM e bolsista da Fiocruz Amazônia é indicada ao Prêmio CAPES de Teses e finalista do 5o Prêmio de Teses Eclea Bosi da Associação Brasileira de História Oral

A historiadora amazonense Michele Pires Lima, primeira travesti Doutora pela Universidade Federal do Amazonas e pesquisadora bolsista do Programa Fortalece SUS, da Fiocruz Amazônia, teve seu trabalho de conclusão de Doutorado indicado ao Prêmio CAPES de Teses e ao 5o Prêmio de Teses Eclea Bosi, promovido pela Associação Brasileira de História Oral (ABHO), com sede no Rio de Janeiro. Intitulada “Sob o espelho de Oxum: afetos, maternagem e ações sociopolíticas de Mulheres Lésbicas Negras e Afro-indígenas em Manaus/AM (1992-2020)”, a pesquisa de Michele traça um panorama histórico sobre a invisibilidade e a baixa representatividade de lésbicas negras e afro-indígenas nos movimentos sociais e na história do Brasil, tendo como recorte geográfico a cidade de Manaus.

Michele explica que o período da pesquisa, de 1992 a 2020, foi escolhido por marcar o surgimento dos primeiros movimentos sociais LGBTQIAPN+ em Manaus e a posterior transformação das práticas ativistas, especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando as ativistas expandiram suas ações para o apoio comunitário, distribuindo sopas em hospitais e cestas básicas. A indicação ao Prêmio CAPES de Tese foi feita pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFAM. Já o anúncio da homologação dos trabalhos concorrentes da ABHO ocorreu no dia 7/05 e a premiação acontecerá em setembro deste ano.

“A indicação é um reconhecimento importante e contribui para possibilitar escuta e visibilidade às experiências de mulheres negras que realizam ações em defesa dos direitos humanos e sociais para os grupos minoritários em Manaus. A indicação ao Prêmio CAPES foi outra grande conquista para minha trajetória, tendo em vista a importância e o peso institucional da CAPES”, afirma Michele, comemorando a indicação. Ela destaca a importância da oralidade para a manutenção da história de segmentos invisibilizados.

PRÊMIO CAPES

O Prêmio CAPES de Tese reconhece os melhores trabalhos de doutorado defendidos no Brasil. Pelo Edital nº 14/2026, cada Programa de Pós-Graduação (PPG) indicou o seu representante para a avaliação nacional. Os vencedores de cada uma das 50 áreas de avaliação e os agraciados com o Grande Prêmio serão revelados em setembro de 2026.

Criado em 2005, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES/MEC), o Prêmio CAPES de Tese chega à edição de 2026 e acumula números que demonstram o alcance da premiação ao longo de mais de duas décadas. Durante esse período, a iniciativa já ultrapassou 17 mil teses inscritas e reconheceu 927 doutores(as) em diferentes áreas do conhecimento.

Em sua primeira edição, realizada em 2006, o concurso recebeu 228 inscrições. Em 2025, esse número superou 1,5 mil trabalhos submetidos, demonstrando o crescimento da participação dos programas de doutorado de todo o país.  

Reconhecendo autores e orientadores, também incentiva a continuidade da formação acadêmica. Os vencedores recebem bolsas de pós-doutorado no Brasil e no exterior, além de premiações financeiras destinadas aos docentes responsáveis pela orientação das pesquisas.

Os três melhores trabalhos entre todos os vencedores recebem o Grande Prêmio CAPES de Tese. Nessa etapa, os autores são contemplados com bolsa para realização de estágio pós-doutoral internacional. Os orientadores recebem R$ 9 mil para participação em congresso científico no exterior.

Instituições parceiras ampliam a valorização acadêmica em áreas específicas. Na edição 2026, participam da iniciativa a Fundação Carlos Chagas, o Instituto Serrapilheira, a Dimensions Sciences e a CAPES oferecendo outros prêmios.

SOBRE A ABHO

Criada em 29 de abril de 1994, durante o 2º Encontro Nacional de História Oral, realizado no Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de História Oral congrega estudiosos e pesquisadores das áreas de história, ciências sociais, antropologia, educação, comunicação e diversas outras disciplinas de todas as regiões do país. Seus associados têm em comum o uso da história oral em suas pesquisas, isto é, a produção e interpretação de entrevistas gravadas com pessoas que viveram ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida, ou outros aspectos da história contemporânea.

A gravação de entrevistas com testemunhas da história teve início na década de 1950, após a invenção do gravador à fita, na Europa, nos EUA e no México. A partir dos anos 1970, as técnicas da história oral difundiram-se bastante e ampliou-se o intercâmbio entre os que a praticavam. Foram criados programas de história oral em diversos países e editados livros e revistas especializados na matéria. Os anos 1990 assistiram à consolidação da história oral no meio acadêmico e à criação, além da ABHO, em 1994, da International Oral History Association (IOHA), em 1996.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Júlio Pedrosa

Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia