Fiocruz fortalece discussão sobre interculturalidades e fomento às políticas de ações afirmativas para indígenas na Amazônia
O Insituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) abriu espaço, durante o último mês de abril, para uma ampla discussão acerca de aspectos da interculturalidade indígena e a importância do fomento às políticas afirmativas voltadas para indígenas na Amazônia, como forma de reparo a uma dívida histórica do País com as suas nações indígenas. De 13 a 29/04, o ILMD/Fiocruz Amazônia realizou uma programação de atividades, dentro do 2º Abril Indígena 2026, da Fiocruz, com o tema “Produção Indígena de Conhecimento em Programas de Pós-Graduação em Saúde – Devolutivas para a sociedade”, reunindo pesquisadores e estudantes indígenas e não-indígenas, além de representantes de instituições de ensino e pesquisa, com a finalidade de contribuir com as discussões e inspirar jovens indígenas ainda na graduação a conhecerem as trajetórias de mestres e doutores indígenas.
A programação contou com mesas-redondas e defesas de dissertações por alunos indígenas da primeira turma de Mestrado em Saúde Coletiva do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia, voltada para indígenas do Alto Solimões, na região da Tríplice Fronteira (Brasil, Peru e Colômbia). Abertas ao público, as defesas foram pontos altos da programação, conforme destacou a professora-doutora Daniele Gonzaga, indígena do povo munduruku e diretora de Políticas Afirmativas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Nós estamos territorializando a Fiocruz, dentro do Abril Indígena potente com um debate muito importante sobre políticas afirmativas e a questão da saúde indígena, a partir de defesas de dissertação de mestrado por nossos parentes”, enfatizou Daniele, presente como debatedora à mesa-redonda, do dia 14/04, sobre o tema “Ações afirmativas e ensino em saúde para indígenas”, com participação de docentes, gestores universitários e lideranças indígenas.

Para Daniele, os trabalhos defendidos no Mestrado ressaltam principalmente o aspecto da valorização do conhecimento indígena, citando a defesa do agora mestre em saúde coletiva Josileno Marubo. “Em sua defesa, Josileno fez um recorte muito importante numa perspectiva indígena e antropológica e de saúde para nós, indígenas. Este é um momento histórico, pois é o estabelecimento do diálogo entre povos indígenas e instituições, entendendo a importância dos nossos conhecimentos, entendendo esse marco intercultural efetivo que é a relação das perspectivas e das epistemologias”, salientou. “Enquanto pessoa indígena que ocupa esses lugares, entendam que essa é uma trajetória que se inicia, um caminho que não tem volta, porque a pluridiversidade de nossos conhecimentos e uma perspectiva de sociedade está em construção. Comemoramos e desejamos que esse Abril Indígena se estenda por muitos outros abris indígenas”, afirmou.
Junto com as defesas, a Coordenação do Mestrado inaugurou uma exposição que traz a trajetória tanto pessoal quanto formativa dos sanitaristas indígenas do Alto Solimões. “Mandamos fazer esses painéis comemorativos para marcar esse momento em que as defesas estão sendo finalizadas e termos então o registro desses profissionais que estão emergindo naquela região do Alto Solimões com esse caráter específico de sanitaristas indígenas, o que não tínhamos antes no país, uma turma formada com esse perfil”, enfatiza a pesquisadora sênior da Fiocruz Amazônia, Luiza Garnelo, coordenadora do Mestrado.

Segundo ela, esse cuidado esteve presente desde o início. O processo seletivo dos alunos candidatos ao Mestrado valorizou, para além dos habituais critérios que guiam os processos seletivos na academia (coeficiente de rendimento no histórico escolar, currículo, produção ou experiência científica prévia etc.), a trajetória de vida dos(as) candidatos(as), a participação em coletivos de lutas pelos direitos indígenas e vinculação com suas comunidades de origem”, explica Garnelo. O curso contou com a participação de estudantes graduados nas áreas de odontologia, enfermagem, educação, antropologia, administração, logística, etnodesenvolvimento, biologia e nutrição. “Todos receberam bolsa de estudos e foram equipados com notebooks com office e conexão à web, além de treinamento para acesso às bases nacionais de dados em saúde, bases bibliográficas, BVS indígena, Plataforma Lattes, dentre outros recursos similares”, informa.
Para a diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, a iniciativa é um marco histórico e precisa se tornar permanente. “Precisamos trabalhar para que o Mestrado fora de sede para turmas formadas por indígenas seja permanente e que sejam abertos mais espaços de diálogo, a exemplo do Abril Indígena, para aprofundar esse debate. É super necessário escutar os estudantes indígenas. Todos aqui se sentiram provocados e com muita vontade de agir a partir dos relatos daqueles que estão nos espaços de formação acadêmica, conhecem as problemáticas e necessitam que a discussão sobre políticas afirmativas para indígenas seja fortalecida”, ressaltou.

O evento também contou com a presença de mestres e doutores indígenas pioneiros, a exemplo do Jaime Diacara, da etnia Dessana, doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Para ele, o Abril Indígena da Fiocruz sociabiliza o debate sobre a importância da saúde, trazendo a discussão sobre as políticas afirmativas, com a participação da academia, comunidades indígenas e não indígenas. “A partir de iniciativas como essa, começamos a pensar numa participação ativa dos indígenas nesses espaços de discussão sobre a saúde, sob a ótica dos conhecimentos convencionais e os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas”, afirmou Jaime.
Liderança indígena do Rio Negro, Marivelton Baré, assessor da regional da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), no Alto Solimões, lembrou da importância da formação descentralizada enquanto oportunidade de qualificação de profissionais indígenas que permanecem nos territórios. “Esse processo é visto como uma forma de fortalecer a comunidade, garantir direitos e aplicar os saberes adquiridos na universidade em prol do próprio povo”, destacou. Ele menciona também o aspecto da valorização profissional a partir das oportunidades como a do Mestrado fora da sede da Fiocruz Amazônia. “Essas oportunidades geram uma valorização muito grande, de participação e acolhimento dos povos indígenas, para que nós mesmos sejamos doutores da Amazônia, e possamos estar à frente da gestão da saúde indígena em nossos territórios. É muito gratificante ver esse acolhimento e respeito dado pela Fiocruz”, declarou o representante da SESAI, que é uma das instituições apoiadoras do projeto da primeira turma de sanitaristas indígenas.

Doutorando da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-Fiocruz), Luiz Penha, da etnia tukano, é um exemplo desse processo de valorização. Recém-aprovado no concurso da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, ele ocupa o cargo de especialista em indigenismo na unidade da Funai, no município de Tefé (AM). “Entendemos que a Fiocruz tem identidade indígena. E neste momento em que abraça o mês de luta e de afirmação dos povos indígenas fortalece ainda mais essa identidade. Que seja a primeira de muitas ações do Abril Indígena na Fiocruz”, frisou.

EMPREGABILIDADE
De acordo com Luiza Garnelo, o processo formativo oferecido pelo Mestrado já vem apresentando a ampliação da empregabilidade dos alunos. “Ao iniciar as atividades, a turma contava com diversos estudantes que, embora diplomados no ensino superior estavam desempregados ou atuando em três postos de trabalho parcamente remunerados ou sem qualquer vinculação às suas formações prévias. No último ano de atividades surgiram ofertas de trabalho em suas respectivas áreas de graduação e/ou da nova qualificação como sanitaristas”, revela.
O odontólogo Ozeir Fernandes, da etnia Tikuna, primeiro da turma dos novos sanitaristas a defender dissertação, afirma que o Mestrado foi um divisor de águas na sua trajetória profissional. “Hoje atuo como dentista do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI Yanomami), em Roraima, e meu sentimento é de gratidão, em poder contribuir. E percebi, desde quando comecei a atuar, que os indígenas ficam admirados, ao ver que estão sendo atendidos por profissionais indígenas, somando na assistência”, enfatizou. A conquista do cargo no DSEI veio durante o Mestrado.

Com uma rotina de trabalho que inclui 30 dias na comunidade, 20 dias de descanso e 10 dias de curso de qualificação no DSEI, Ozeir conta que foi preciso se adaptar aos costumes dos Yanomami. “Nos dias trabalhados, preciso levar os materiais para as comunidades, para os atendimentos e para as ações em saúde. O diferencial é estar atuando em outra comunidade e com outros povos, precisamos nos adaptar aos costumes e a vivências da comunidade”, relata. Ele lembra que sua escolha profissional decorreu do fato de que na comunidade onde morava, em Benjamin Constante, não havia profissionais de saúde indígenas, principalmente na área da Odontologia. “Com a ampliação da minha visão cientifica, quero agora fazer o doutorado”, admitiu.
Para Garnelo, o seguimento dos egressos permanecerá, estimulando a preservação do vínculo mútuo, com os docentes e com o programa. “O Mestrado vem se mostrando altamente relevante, não apenas pela interiorização da pós-graduação para municípios rurais remotos, mas também pelas lições aprendidas que fertilizaram a experiência de Tabatinga e prosseguirão contribuindo para o aprimoramento das dimensões políticas e pedagógicas das ações afirmativas desenvolvidas pela Fiocruz, através do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia)”, finalizou.
PROXIMIDADE
Tabatinga foi o município escolhido para sediar a primeira turma por ser região com grande concentração de população indígena, contar com expressivo número de graduados(as) no ensino superior e abrigar campi de 2 universidades. Foram aprovados 15 alunos (de um total de 58 inscritos) oriundos de 4 municípios da região do Alto Solimões (Benjamim Constant, Atalia do Norte, Tabatinga e São Paulo de Olivença), das etnias Marubo, Tikuna, Kokama e Kaixana. “O fato de estarem mais próximos aos seus locais de residência facilitou a adesão dos estudantes ao processo formativo. Outro elemento que representou importante diferencial foi termos uma turma formada exclusivamente por indígenas, ou seja, alunos indígenas vinculados a uma turma de mestrado em que eles não eram minoria étnica”, salienta Luiza Garnelo.
A coordenadora ressalta que a experiência da turma especial do Mestrado caminha em articulação com pesquisa sobre a política de ações afirmativas no ensino superior (graduado e pós-graduado) cujos resultados estão sendo analisados e serão objeto de publicação de artigos e livros. Segundo ela, os resultados parciais da pesquisa já contribuíram para identificar problemas enfrentados pelos estudantes indígenas no ensino universitário e para aprimorar estratégias de ensino-aprendizado aplicadas à turma de Tabatinga. “Tivemos evasão de 2 alunos. Os demais já defenderam ou estão encaminhados para defesa. No âmbito das comemorações do Abril Indígena 2026 completamos mais três defesas, com plano de totalizar 13 defesas até junho de 2026”, adiantou. A iniciativa contou com apoio de múltiplas fontes financiadoras, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (FAPEAM) e SESAI, por meio de TED gerenciado pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção à Saúde (VPAAPS-Fiocruz).
ILMD/Fiocruz Amazônia, por Júlio Pedrosa
Fotos: Júlio Pedrosa / Fiocruz Amazônia


