Fiocruz Amazônia participa de workshop internacional sobre resiliência em saúde e o papel dos Agentes Comunitários de Saúde com CEE-Fiocruz e Imperial College London
O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) integrou o workshop internacional “Resiliência em Sistemas de Saúde Diante das Mudanças Climáticas”, realizado em cooperação entre o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz) e o Imperial College London, entre os dias 13 e 17/04, no Rio de janeiro. O encontro reuniu pesquisadores, gestores e, sobretudo, agentes comunitários de saúde (ACS) do SUS e dos Community Health and Wellbeing Workers (CHWWs) do sistema de saúde britânico (NHS), de diferentes territórios (Manaus, Duque de Caxias, Londres e Cornwall), destacando o protagonismo desses trabalhadores na resposta aos desafios climáticos e sociais da saúde.

A iniciativa teve como finalidade reforçar a cooperação entre Brasil e Reino Unido na construção de sistemas de saúde mais resilientes, com base na troca de experiências entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o National Health Service (NHS) de forma mais ampliada. Na abertura do evento, o pesquisador Alessandro Jatobá, coordenador-adjunto do CEE-Fiocruz e líder do ResiliSUS, destacou o caráter estratégico da parceria. “Esse projeto envolve o aprendizado bidirecional e ações de base territorial no nível da Atenção Primária. Um sistema de saúde resiliente é aquele capaz de manter funções essenciais mesmo diante de efeitos adversos, como os provocados pelas mudanças climáticas”, enfafizou.

O coordenador britânico e pesquisador da Imperial College Matthew Harris ressaltou o valor da cooperação internacional. “O intercâmbio permite construir um sistema de saúde resiliente frente às mudanças climáticas, com base na atuação dos profissionais nos territórios e na adaptação dos serviços”, afirmou. Já a médica Connie Junghans-Minton, especialista em saúde pública e liderança em projetos de equidade e modelos comunitários no Reino Unido, chamou atenção para a centralidade dos agentes comunitários: “Os agentes podem atuar como mobilizadores locais para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, especialmente em contextos de privações socioambientais.”

O workshop também contou com a presença do parlamentar britânico Simon Opher, médico clínico geral, que destacou a importância de aprender com o modelo brasileiro: “Viemos conhecer e nos inspirar no trabalho dos agentes comunitários do SUS. Essa abordagem, baseada na proximidade com as famílias e na prevenção, é algo que queremos adaptar ao NHS”, disse ele.

PARTICIPAÇÃO AMAZÔNICA E PROTAGONISMO TERRITORIAL
Representando o Laboratório de História, Políticas Públicas e Saúde na Amazônia (LAHPSA-Fiocruz Amazônia), o pesquisador Rodrigo Tobias de Sousa Lima destacou o papel estruturante dos ACS nos territórios. “Os agentes de saúde atuam nos determinantes sociais e ambientais, mediando a relação entre as equipes de saúde e as populações. São o elo fundamental na produção do cuidado no território”, salientou.
Rodrigo Tobias ressaltou a importância da presença dos pesquisadores da Fiocruz Amazônia no encontro. Junto com ele, estiveram presentes os pesquisadores do LAHPSA Caroline Nobre e Lucas Cabral, ambos especialistas em gestão e políticas de saúde. “A presença amazônica reforça o protagonismo territorial da região no debate internacional sobre saúde planetária e sistemas resilientes de saúde”, observou, acrescentando que a equipe de pesquisadores do ILMD/Fiocruz Amazônia participará de produções em colaboração entre Brasil e Inglaterra.
ACS NO CENTRO DAS SOLUÇÕES
Com participação ativa de ACS de diferentes contextos — incluindo territórios urbanos, periféricos, indígenas e europeus — o encontro reforçou o papel desses profissionais como articuladores entre comunidade, serviços de saúde e políticas públicas. As discussões abordaram temas como formação, condições de trabalho, supervisão e reconhecimento profissional, além da necessidade de incorporar a dimensão climática na atuação cotidiana dos agentes.

O agente indígena de saúde Iranilson Militão Gabriel, que atua em território amazônico, destacou a dimensão cultural e ambiental do cuidado. “No nosso território, cuidar da saúde não é só tratar doença, é cuidar da água, da floresta e das relações entre as pessoas. As mudanças no clima já estão afetando nossa forma de viver, nossa alimentação e nossa saúde. O agente indígena tem esse papel de proteger a vida em todas essas dimensões, dialogando com o saber tradicional e com o sistema de saúde”, explicou.
Já o agente comunitário Carlos Daniel Rodrigues, ACS indígena de contexto urbano de Manaus, enfatizou os desafios cotidianos e a importância do vínculo com a população. “A gente está na ponta, escutando as famílias, entendendo os problemas antes deles chegarem no posto de saúde. Mas para isso precisamos de mais apoio, de um salário mais digno, formação contínua e reconhecimento profissional. Quando falamos de mudanças climáticas, isso já aparece no nosso dia a dia, nas doenças, nas enchentes e o ACS pode responder a tudo isso junto com a comunidade.”
A pesquisadora Cleo Baskin, da Community Health Impact Coalition (CHIC), ressaltou a importância de fortalecer globalmente a profissionalização desses trabalhadores. “A Community Health Impact Coalition (CHIC) atua para tornar os agentes comunitários de saúde profissionais reconhecidos em todo o mundo. Trabalhamos na construção de diretrizes internacionais, na ampliação do financiamento global e no fortalecimento de políticas nacionais que valorizem esses trabalhadores como parte essencial de sistemas de saúde mais equitativos e eficazes.”
PERSPECTIVAS E RESULTADOS
O workshop teve como objetivo central a cocriação de módulos de formação de CHWW dos diversos países e estratégias de avaliação em saúde planetária, que possam ser incorporados aos sistemas de saúde do Brasil e do Reino Unido e modelos para os demais países.
A iniciativa aponta para o fortalecimento de políticas públicas baseadas no território, na participação social e na integração entre saúde e meio ambiente com protagonismo dos agentes comunitários como atores-chave na construção de sistemas de saúde mais equitativos e resilientes.
ILMD/Fiocruz Amazônia
Fotos: Divulgação / Fiocruz Amazônia



