Fiocruz Amazônia leva Projeto Saúde nas Margens com modelo inovador de vigilância participativa a Manicoré
MANICORÉ (AM) – Manicoré, distante cerca de 350 quilômetos de Manaus, por via fluvial, está inserido no contexto da BR-319, importante eixo de ligação entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO) e uma região marcada por desafios ambientais, sociais e logísticos. O município integra o chamado “Trecho do Meio” da rodovia, que atravessa diferentes ambientes amazônicos e conecta comunidades, áreas rurais e unidades de conservação. Com cerca de 230 comunidades distribuídas em uma extensa área, Manicoré enfrenta grandes desafios de acesso e comunicação entre as localidades e os serviços públicos. É nesse contexto que o projeto Saúde nas Margens, desenvolvido pela Fiocruz Amazônia, amplia sua atuação para o município, propondo fortalecer a vigilância em saúde a partir da participação das próprias comunidades.

A iniciativa implementará um modelo de Vigilância de Eventos Baseada em Comunidades (VEBC), aproximando moradores, profissionais de saúde e diferentes setores da gestão municipal para ampliar a capacidade de identificar, comunicar e acompanhar eventos que possam exigir investigação ou resposta. A proposta adota os princípios de Uma Só Saúde (One Health), integrando informações sobre saúde humana, saúde animal e condições ambientais. Essa abordagem permite considerar, de forma conjunta, situações como queimadas, fumaça, estiagem, alagamentos e outras mudanças no ambiente que podem repercutir sobre a saúde das populações e dos animais. Em um território em transformação, a participação das comunidades pode contribuir para identificar mais precocemente sinais de mudanças e riscos à saúde.

A proposta do Saúde nas Margens é observar diferentes sinais que acontecem nas comunidades e permitir que essas informações cheguem aos responsáveis pela vigilância municipal. O questionário desenvolvido para o projeto está organizado em três componentes: Saúde Humana, Saúde Animal e Saúde Ambiental. Na saúde humana, poderão ser registrados eventos como diarreias e vômitos, problemas respiratórios, lesões de pele, intoxicações, acidentes de trabalho e óbitos. No componente animal, poderão ser registradas agressões ou mordeduras por animais domésticos ou silvestres, mortes de animais, infestação por pulgas e carrapatos e mudanças de comportamento.

Já no eixo ambiental, poderão ser registradas ocorrências relacionadas a problemas com lixo, água, contaminação do solo, desmatamento, queimadas, estiagem e alagamentos. A integração dessas informações permite observar o território de forma mais ampla. Uma alteração ambiental pode estar relacionada a mudanças na saúde das pessoas ou dos animais, enquanto ocorrências observadas nas comunidades podem indicar situações que precisam ser investigadas.

Nos últimos dez anos, estamos sofrendo ameaças de doenças emergentes, como Zika, Chikungunya, Febre amarela, SARS-CoV-2, Mpox, esporotricose, dengue e, mais recentemente, a febre oropouche, e percebemos que estamos precisando trabalhar para identificar e fazer uma vigilância mais rápida dessas ameaças, não só no nível laboratorial, mas também populacional”, explica o pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia Pritesh Lalwani, coordenador do projeto. No caso de Manicoré, a situação ambiental também faz parte desse cenário. “No caso de Manicoré, situada na região do Arco do Fogo, temos o agravante dos casos de doenças respiratórias causadas pela fumaça resultante das queimadas”, destaca Lalwani.

TECNOLOGIA PARA AMPLIAR A VIGILÂNCIA
Para apoiar o trabalho, o projeto utiliza uma ferramenta digital para coleta, gerenciamento e disseminação das informações. O sistema foi pensado para funcionar também em locais sem conexão permanente com a internet. Os dados podem ser registrados no dispositivo e enviados posteriormente, quando houver sinal disponível. A ferramenta poderá ser utilizada por agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias, professores, agentes da Defesa Civil, profissionais ligados à área ambiental e lideranças comunitárias.

A ideia é ampliar a rede de observação do território, aproveitando a presença dessas pessoas no cotidiano das comunidades. “A vigilância de eventos baseada em comunidades visa não só identificar doenças causadas por mosquitos (arboviroses) como também diarreias, lesões de pele, mordeduras de animais domésticos ou silvestres, como morcegos, entre outros”, explica Lalwani. A proposta não substitui os sistemas oficiais de vigilância. O objetivo é ampliar a capacidade de perceber eventos no território e melhorar a comunicação com as equipes responsáveis pela avaliação e resposta.
PRIMEIRA OFICINA EM MANICORÉ
A primeira oficina do projeto em Manicoré foi realizada entre 27 e 31 de julho, com a participação de 44 profissionais que atuam nos distritos de São Vicente, Ponta do Carmo, Capananzinho, Democracia, Barro Alto, Verdum e Cachoeirinha. Participaram médicos, dentistas, enfermeiros e técnicos de enfermagem, além de representantes das demais secretarias envolvidas. A iniciativa conta com o apoio da Prefeitura de Manicoré, por meio das secretarias municipais de Saúde, Educação, Meio Ambiente e Defesa Civil, e envolve as sete equipes de Saúde da Família do município, seis ribeirinhas e uma fluvial.

Manicoré possui 91 agentes comunitários de saúde e 13 agentes de combate às endemias. As equipes de Saúde da Família atendem, em média, entre 20 e 30 comunidades, cada. Para o coordenador da Vigilância em Saúde de Manicoré, Kedson Monteiro, a ferramenta poderá contribuir para melhorar o acompanhamento das comunidades diante das dificuldades logísticas. “A ferramenta vai ajudar a conseguir atingir a todas e poder tomarmos as iniciativas que sejam necessárias de modo mais rápido”, afirmou.
Para Lalwani, as características do município fazem de Manicoré um território adequado para testar a proposta. “Manicoré possui todas as características necessárias para a implementação do projeto, uma vez que tem uma rede de saúde municipal estruturada e comunidades remotas espalhadas por um vasto território, com localidades de difícil acesso”, explica.
DA EXPERIÊNCIA COMUNITÁRIA À ESCALA MUNICIPAL
O Saúde nas Margens já vem sendo desenvolvido em duas comunidades rurais ribeirinhas da região do Baixo Rio Negro — Santa Maria e Nossa Senhora de Fátima — e em outras dez localidades do entorno. As comunidades são atendidas pela Unidade Básica de Saúde Fluvial Ney Lacerda, tendo como unidade de apoio a Unidade de Saúde da Família de Santa Maria, do Distrito de Saúde Rural da Semsa Manaus. A experiência inicial foi construída a partir da necessidade de fortalecer a vigilância em áreas onde as distâncias, as dificuldades de comunicação e o acesso limitado aos serviços podem dificultar a identificação rápida de eventos de saúde.

Em Manicoré, a proposta avança para uma nova etapa: testar como esse modelo de vigilância participativa pode funcionar em escala municipal, integrando comunidades e diferentes setores da gestão pública. Para a pesquisadora Isiyara Pimenta, do Laboratório Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema (IPCCB), da Fiocruz Amazônia, a integração entre as secretarias municipais é um dos diferenciais dessa etapa. “Integrar as quatro secretarias municipais é o diferencial da primeira etapa da implantação do projeto em Manicoré e contribuirá para o fortalecimento da estrutura municipal de vigilância em saúde, ampliando a capacidade de detecção, comunicação, monitoramento e resposta aos eventos e às emergências de saúde pública no território”, observa. Isiyara atua no projeto juntamente com Carolina Singh, Bárbara Salgado, Maria Raiana dos Santos, Mário Almeida e Micael Oliveira.
NOVOS DESAFIOS
A experiência em Manicoré permitirá acompanhar como a vigilância baseada em comunidades pode ser utilizada em um território de grande extensão, com comunidades remotas e diferentes desafios ambientais. A equipe deverá avaliar a utilização da ferramenta, a participação dos diferentes atores envolvidos e a comunicação entre as comunidades e os serviços municipais. A expectativa é que os resultados contribuam para aperfeiçoar o modelo e avaliar sua adaptação a outros territórios amazônicos.

Em um cenário de mudanças ambientais e eventos climáticos que podem afetar as condições de vida das populações, fortalecer a capacidade local de identificar sinais e comunicar situações de risco pode contribuir para melhorar a preparação e a resposta dos municípios. A expansão da experiência também poderá abrir espaço para novas parcerias com instituições públicas, privadas e organizações interessadas em vigilância em saúde, inovação e preparação dos territórios amazônicos diante dos desafios ambientais e climáticos.
SOBRE O PROJETO
O Saúde nas Margens: Um Modelo One Health para Vigilância Participativa e resposta rápida a doenças infecciosas em comunidades ribeirinhas de Manaus é desenvolvido pela Fiocruz Amazônia e propõe uma abordagem de vigilância participativa e comunitária adaptada às condições das áreas remotas da Amazônia. A iniciativa integra saúde humana, saúde animal e saúde ambiental e busca fortalecer a capacidade das comunidades e dos serviços públicos para identificar eventos de interesse para a saúde, melhorar a comunicação e apoiar respostas mais rápidas. O projeto piloto em Manaus foi apoiado por Programa Inova Fiocruz – Emergências em Saúde Pública, que apoia propostas voltadas à prevenção, controle e resposta a situações de emergência sanitária, desastres e desassistência à população.
ILMD/Fiocruz Amazônia
Fotos: Júlio Pedrosa/Fiocruz Amazônia


