{"id":35733,"date":"2021-12-01T14:33:12","date_gmt":"2021-12-01T18:33:12","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=35733"},"modified":"2021-12-01T14:33:13","modified_gmt":"2021-12-01T18:33:13","slug":"depois-de-anos-de-silenciamento-vanessa-campos-deu-novo-sentido-ao-viver-com-hiv-aids","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=35733","title":{"rendered":"Depois de anos de silenciamento, Vanessa Campos deu novo sentido ao viver com HIV\/aids"},"content":{"rendered":"<section class=\"av_textblock_section \"  itemscope=\"itemscope\" itemtype=\"https:\/\/schema.org\/BlogPosting\" itemprop=\"blogPost\" ><div class='avia_textblock  '   itemprop=\"text\" ><p style=\"text-align: justify;\">Depois de anos de sil\u00eancio, Vanessa Campos decidiu que era hora de trazer sua hist\u00f3ria a p\u00fablico e falar sobre o HIV. Em 2016, ela tomou coragem e escreveu o primeiro depoimento em seu perfil pessoal no Facebook. \u201cPara mim falar sobre HIV\/aids \u00e9 sair de uma solid\u00e3o terr\u00edvel que eu vivi por muitos anos da minha vida. E mostrar para as outras pessoas que elas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas\u201d, conta. Em 1990, ela era uma adolescente em Manaus, com 17 anos, que j\u00e1 trabalhava e havia decidido iniciar a vida sexual com o primeiro namorado, da mesma idade. Alguns meses depois, teve sintomas como febre alta, dores no corpo e g\u00e2nglios aumentados, mas a m\u00e9dica disse se tratar de uma virose simples. Vida que segue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seis meses ap\u00f3s o t\u00e9rmino do relacionamento, veio o baque: o ex-namorado sofreu um acidente de carro e, durante a interna\u00e7\u00e3o, faleceu em decorr\u00eancia de uma infec\u00e7\u00e3o. A causa: HIV. S\u00f3 assim ela foi orientada a fazer o teste e recebeu o diagn\u00f3stico positivo, em 1992. Em uma \u00e9poca em que n\u00e3o havia tratamento, ela logo pensou que iria morrer muito r\u00e1pido, relembra. \u201cManaus era uma cidade pequena, eu tive que me mudar, porque por onde andava eu era \u2018a namorada do cara que morreu de aids\u2019. Eu n\u00e3o me sentia mais um ser humano, me sentia o pr\u00f3prio v\u00edrus ambulante\u201d, relata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Rio de Janeiro, cidade para onde foi transferida, recome\u00e7ou a vida, iniciou um novo relacionamento e teve o primeiro filho. \u201cA mulher que descobre o seu diagn\u00f3stico quer muito ser aceita por algu\u00e9m. O estigma \u00e9 muito pesado e vem carregado de culpa\u201d, ressalta. Ao contar para o novo parceiro sobre o HIV positivo, na tentativa de recome\u00e7ar, ela passou a ter que lidar com uma norma: \u201cele me aceitava, contanto que eu n\u00e3o falasse do meu HIV para ningu\u00e9m, nem na fam\u00edlia ou no trabalho. Ele me aceitava se eu me silenciasse\u201d. Os pavores, ela aprendeu a esconder em seu cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia com quem conversar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim se passaram anos: veio a separa\u00e7\u00e3o, ela voltou para Manaus, casou-se novamente, teve duas filhas. E o silenciamento era sempre sua companhia. Em 1997, come\u00e7ou a fazer uso dos antirretrovirais (ARV), que ent\u00e3o passaram a ser distribu\u00eddos gratuitamente pelo SUS. Depois da segunda separa\u00e7\u00e3o \u2014 que \u201cfoi uma rela\u00e7\u00e3o extremamente abusiva, porque continuou o ciclo do sil\u00eancio\u201d \u2014, ela novamente decidiu se calar para proteger as duas filhas: \u201cEu tinha duas crian\u00e7as que dependiam de mim e, se eu falasse de HIV, elas tamb\u00e9m iam sofrer discrimina\u00e7\u00e3o\u201d, narra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aos poucos, ao buscar informa\u00e7\u00e3o e contatos pela internet, Vanessa foi descobrindo uma rede de pessoas que tamb\u00e9m viviam com HIV e come\u00e7ou a quebrar o ciclo de solid\u00e3o. At\u00e9 que em 2016, depois de conversar com as duas filhas, j\u00e1 adolescentes, ela escreveu o primeiro texto em que vivenciou a experi\u00eancia libertadora de revelar sua sorologia ao mundo. Com o apoio das filhas e de amigos, criou a p\u00e1gina SoroposiDHIVA, em que fala sobre empoderamento feminino, sexualidade, autocuidado e preven\u00e7\u00e3o. \u201cA soroposiDHIVA nasceu da ideia de que eu pudesse falar o que estivesse sentindo e que as pessoas se sentissem representadas naquelas dores\u201d, define Vanessa, atualmente representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV\/aids (RNP+Brasil) no Grupo Tem\u00e1tico Ampliado do programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a aids (Unaids) e representante da RNP+Brasil no Amazonas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a pauta das mulheres vivendo com HIV\/aids sempre foi invisibilizada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto mulher vivendo com HIV, existe uma linha do tempo que precisa ser contada. Desde o in\u00edcio da pandemia de aids, as mulheres cisg\u00eanero sempre foram muito invisibilizadas. Se a gente buscar a hist\u00f3ria de como as not\u00edcias foram sendo repassadas no mundo inteiro, era visto como \u201cc\u00e2ncer gay\u201d, uma epidemia voltada para homossexuais. N\u00e3o se falava que poderia atingir qualquer pessoa. Existia o tal do \u201cgrupo de risco\u201d. E a\u00ed nessa hist\u00f3ria de vincular a aids a um grupo de risco, as mulheres cisg\u00eanero n\u00e3o estavam contabilizadas. E eu era uma delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se deu a sua descoberta da sorologia e como a sua hist\u00f3ria revela as vulnerabilidades das mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao HIV?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fui infectada com HIV na primeira semana de janeiro de 1990. Eu tive a infec\u00e7\u00e3o aguda, aqueles sintomas muito cl\u00e1ssicos da infec\u00e7\u00e3o. E eu n\u00e3o sabia. Fui tratada como se fosse uma virose. Na \u00e9poca eu era uma adolescente de 17 anos e s\u00f3 tinha tido um parceiro sexual, um rapaz que eu estava come\u00e7ando a namorar. Come\u00e7amos a ter rela\u00e7\u00f5es sexuais mais ou menos no final de novembro de 1989 e, quando foi na primeira semana de janeiro, eu tive a tal infec\u00e7\u00e3o aguda pelo HIV, mas sem saber que era HIV, at\u00e9 porque ele mesmo n\u00e3o sabia que tinha HIV, porque tamb\u00e9m era heterossexual. Com essa hist\u00f3ria de grupo de risco, os homens heterossexuais e que n\u00e3o usavam drogas injet\u00e1veis n\u00e3o eram tratados como algu\u00e9m que podia ser afetado pela aids. As mulheres cisg\u00eanero muito menos. Eu ia me preocupar com a aids para qu\u00ea? O pior \u00e9 que at\u00e9 hoje, para meninas e mulheres, 40 anos depois dos primeiros casos de aids, a hist\u00f3ria \u00e9 a mesma: elas se sentem imunes porque est\u00e3o casadas ou se relacionam com o mesmo homem a vida inteira. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as mulheres cisg\u00eanero, na terceira idade, est\u00e3o se descobrindo com HIV\/aids. At\u00e9 porque numa sociedade estruturalmente machista, que mulher casada tem autonomia para exigir o uso de preservativo do seu marido? A primeira coisa que eles dizem para ela, se elas tiverem essa coragem de ter esse di\u00e1logo, \u00e9: Voc\u00ea est\u00e1 me traindo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na constru\u00e7\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o combinada \u2014 que evoluiu muito, no mundo inteiro, e aqui no Brasil, desde 2017, temos a Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o (PrEP) como protocolo de preven\u00e7\u00e3o combinada \u2014, a mulher cisg\u00eanero s\u00f3 entra em dois casos: como trabalhadora sexual ou se ela tem um relacionamento com um homem que vive com HIV. Ent\u00e3o ela est\u00e1 sempre condicionada a ter acesso a essa profilaxia dependendo do homem com quem ela transa. N\u00e3o \u00e9 por ela ou por ser uma mulher que est\u00e1 vulnerabilizada numa sociedade em que o homem nega o preservativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como eu, quantas mulheres naquele mesmo per\u00edodo j\u00e1 estavam dando \u00e0 luz a crian\u00e7as com HIV? Os maridos j\u00e1 tinham morrido de aids, mas ningu\u00e9m falava delas. Ao mesmo tempo que eu, aos 17 anos, estava sendo infectada, muitas meninas estavam nascendo com HIV e a m\u00e3e delas logo depois morrendo. Quantas crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s da aids n\u00f3s temos com essa idade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clique <a href=\"https:\/\/radis.ensp.fiocruz.br\/index.php\/home\/entrevista\/soroposidhiva-com-orgulho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">AQUI<\/a> para acessar a entrevista na \u00edntegra.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fonte: Revista Radis, por Luiz Felipe Stevanim<\/em><\/strong><\/h6>\n<\/div><\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista aborda realidades das mulheres vivendo com HIV\/aids<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":35734,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[136,120,542,119,131,1074,1090,122],"class_list":["post-35733","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-fiocruz","tag-fiocruz-amazonia","tag-hiv","tag-ilmd","tag-ilmdfiocruz-amazonia","tag-ist-hiv-hv","tag-radis","tag-saude","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=35733"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35736,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35733\/revisions\/35736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/35734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=35733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=35733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=35733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}