{"id":23861,"date":"2018-02-26T19:22:10","date_gmt":"2018-02-26T19:22:10","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=23861"},"modified":"2018-02-27T14:11:16","modified_gmt":"2018-02-27T14:11:16","slug":"entenda-o-papel-de-cada-inseto-na-transmissao-da-febre-amarela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=23861","title":{"rendered":"Entenda o papel de cada inseto na transmiss\u00e3o da febre amarela"},"content":{"rendered":"<p>Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que o pa\u00eds contabiliza, de julho de 2017 a fevereiro de 2018, 164 mortes por febre amarela, com 545 casos confirmados e 422 em investiga\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o momento, todas as notifica\u00e7\u00f5es est\u00e3o associadas ao ciclo silvestre da doen\u00e7a, afetando pessoas que contra\u00edram o v\u00edrus em \u00e1reas de mata ou em suas proximidades. Segundo a pasta, os casos de infec\u00e7\u00e3o em \u00e1rea urbana n\u00e3o ocorrem no Brasil desde 1942. Uma das diferen\u00e7as centrais entre as duas formas de aquisi\u00e7\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o est\u00e1 nos mosquitos que transmitem o v\u00edrus da febre amarela em cada ambiente, como explicam pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz (IOC\/Fiocruz).<\/p>\n<p>Enquanto nas florestas insetos dos g\u00eaneros <em>Haemagogus<\/em> e <em>Sabethes<\/em> disseminam o agravo, nas cidades, o Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya, tem potencial de transmiss\u00e3o. Em testes de laborat\u00f3rio, foi comprovada a capacidade de mosquitos Aedes do Rio de Janeiro, Manaus e Goi\u00e2nia na transmiss\u00e3o de linhagens do v\u00edrus que circulam no Brasil e na \u00c1frica. Os especialistas ressaltam a import\u00e2ncia de medidas preventivas para evitar a reurbaniza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cOs mosquitos Haemagogus e Sabethes vivem na copa das \u00e1rvores. Por isso, o alvo preferencial das suas picadas s\u00e3o os macacos, que compartilham o mesmo habitat\u201d, relata Dinair Couto, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios. Assim, no ciclo silvestre da febre amarela, a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus \u00e9 mantida pela intera\u00e7\u00e3o entre os vetores e os primatas, que s\u00e3o os principais hospedeiros e amplificadores do v\u00edrus: \u00e9 a partir da picada em primatas infectados que mais mosquitos podem contrair o v\u00edrus.<\/p>\n<p>Os s\u00edmios da Am\u00e9rica do Sul s\u00e3o muito sens\u00edveis ao v\u00edrus da febre amarela. Eles adoecem de forma semelhante aos seres humanos e frequentemente morrem. O \u00f3bito de macacos em determinada \u00e1rea \u00e9 um dos principais ind\u00edcios de circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus na floresta. \u201cNesse ciclo, a infec\u00e7\u00e3o humana ocorre de forma acidental. Ao entrar ou se aproximar de uma \u00e1rea de mata onde h\u00e1 epizootia [mortalidade de macacos], as pessoas n\u00e3o vacinadas podem contrair a infec\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de picadas de mosquitos <em>Haemagogus<\/em> ou<em> Sabethes<\/em> infectados, que eventualmente descem da copa das \u00e1rvores para perto do solo. Sem imunidade \u00e0 doen\u00e7a, elas ser\u00e3o infectadas\u201d, completa Maria Goreti Freitas, pesquisadora do mesmo Laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Diferentes esp\u00e9cies de mosquitos dos g\u00eaneros Haemagogus e Sabethes podem transmitir a febre amarela em ambientes silvestres. No Brasil, as mais frequentes s\u00e3o Haemagogus janthinomys e Haemagogus leucocelaenus, insetos considerados vetores prim\u00e1rios da forma silvestre da doen\u00e7a, uma vez que suas caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas, biol\u00f3gicas e comportamentais s\u00e3o favor\u00e1veis para a transmiss\u00e3o, tornando-os capazes de desencadear e manter a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Entre as esp\u00e9cies do g\u00eanero Sabethes, as mais comuns s\u00e3o Sabethes chloropterus e Sabethes albiprivus, mosquitos considerados vetores secund\u00e1rios do v\u00edrus, pois n\u00e3o s\u00e3o capazes de sustentar a circula\u00e7\u00e3o viral isoladamente, mas podem contribuir para a sua manuten\u00e7\u00e3o. Os dois g\u00eaneros de insetos podem ser encontrados em florestas de Norte a Sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>H\u00c1BITOS E APAR\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p>Visualmente, <em>Haemagogus<\/em> e <em>Sabethes<\/em> s\u00e3o mosquitos bem diferentes. No entanto, seus h\u00e1bitos apresentam semelhan\u00e7as. No primeiro grupo, os <em>Hg. leucocelaenus<\/em> apresentam o t\u00f3rax coberto de escamas escuras com uma faixa prateada longitudinal na parte superior, enquanto os <em>Hg. janthinomys<\/em> possuem o t\u00f3rax coberto de escamas de tonalidade escura, que varia de verde-escuro a azul. \u201cA olho nu, os <em>Haemagogus<\/em> se parecem com os <em>Aedes<\/em>, sendo que os <em>Hg. leucocelaenus<\/em> se assemelham especialmente aos <em>Aedes albopictus<\/em> por possu\u00edrem a mesma listra longitudinal no t\u00f3rax. A principal diferen\u00e7a \u00e9 que eles n\u00e3o apresentam listras brancas nas pernas\u201d, destaca Dinair. Por outro lado, os <em>Sabethes<\/em> chamam aten\u00e7\u00e3o pelo colorido metalizado, com tons de violeta, roxo, azul e verde.<\/p>\n<p>Os <em>Haemagogus<\/em> e <em>Sabethes<\/em> s\u00e3o estritamente silvestres, sendo que os<em> Sabethes<\/em> s\u00e3o ainda mais seletivos na sua dispers\u00e3o. Os vetores se concentram nos locais de vegeta\u00e7\u00e3o preservada, e os <em>Haemagogus<\/em> podem ser encontrados ainda na periferia das florestas, nas chamadas franjas da mata, onde os<em> Sabethes<\/em> geralmente n\u00e3o se aventuram. <em>Hg. leucocelaenus<\/em> pode voar alguns quil\u00f4metros atrav\u00e9s de desacampados para atingir por\u00e7\u00f5es de mata isoladas pela a\u00e7\u00e3o do homem. Para se reproduzir, esses insetos colocam seus ovos nos ocos das \u00e1rvores e em bambus, no ac\u00famulo de \u00e1gua formado nos intern\u00f3dios (as conex\u00f5es entre trechos do caule). Assim como os Aedes, os<em> Haemagogus<\/em> n\u00e3o depositam seus ovos diretamente na superf\u00edcie aqu\u00e1tica, mas sim na parede interna do criadouro pr\u00f3ximo \u00e0 l\u00e2mina d\u2019\u00e1gua. Quando os ovos s\u00e3o submersos, as larvas eclodem e passam a se desenvolver, se alimentado da mat\u00e9ria org\u00e2nica presente na \u00e1gua, at\u00e9 se tornarem pupas. Cerca de sete a dez dias ap\u00f3s a eclos\u00e3o dos ovos, os <em>Haemagogus<\/em> chegam \u00e0 fase de mosquitos adultos. J\u00e1 os <em>Sabethes<\/em> lan\u00e7am seus ovos diretamente sobre a superf\u00edcie da \u00e1gua e chegam \u00e0 fase adulta quase um m\u00eas depois.<\/p>\n<p>Insetos <em>Haemagogus<\/em> e <em>Sabethes<\/em> possuem um tempo de vida considerado longo para mosquitos, o que pode favorecer a propaga\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus. Observa\u00e7\u00f5es em laborat\u00f3rio indicam que o tempo de sobreviv\u00eancia de ambos ultrapassa meses ap\u00f3s os insetos atingirem a idade adulta. \u201cEsse fator \u00e9 importante porque, uma vez infectado, o mosquito permanece portador e capaz de transmitir o v\u00edrus da febre amarela durante toda a vida\u201d, diz Dinair.<\/p>\n<p><strong>COMPARA\u00c7\u00d5ES COM O AEDES<\/strong><\/p>\n<p>Insetos<em> Haemagogus<\/em> e <em>A. aegypti<\/em> compartilham uma vantagem reprodutiva: seus ovos podem permanecer vi\u00e1veis no ambiente por per\u00edodos de seca, at\u00e9 que a chuva abaste\u00e7a novamente os criadouros com \u00e1gua, contribuindo para o nascimento das larvas. A resist\u00eancia \u00e0 desseca\u00e7\u00e3o \u00e9 menor para os <em>Haemagogus<\/em> \u2013 cerca de quatro meses \u2013 do que para os <em>A. aegypti<\/em> \u2013 pode chegar a um ano. Ainda assim, segundo as pesquisadoras, o per\u00edodo \u00e9 longo o suficiente para favorecer a continuidade das esp\u00e9cies em locais com varia\u00e7\u00e3o na frequ\u00eancia de chuvas. Em contrapartida, os ovos de<em> Sabethes<\/em> precisam entrar em contato com a \u00e1gua logo ap\u00f3s a postura ou perdem a viabilidade.<\/p>\n<p>Ainda no aspecto reprodutivo, os <em>Hg. leucocelaenus<\/em> possuem uma particularidade: apenas partes dos seus ovos eclode ap\u00f3s a primeira submers\u00e3o em \u00e1gua, enquanto o restante permanece latente, pronto para eclodir em submers\u00f5es subsequentes. Esse mecanismo faz com que um \u00fanico lote de ovos d\u00ea origem a diversos grupos de mosquitos no decorrer do tempo, favorecendo a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie no ambiente por um longo per\u00edodo. Ao mesmo tempo, contribui para a manuten\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela, uma vez que as f\u00eameas infectadas transmitem o v\u00edrus para a prole, em um processo chamado de transmiss\u00e3o transovariana.<\/p>\n<p>A capacidade de percorrer longas dist\u00e2ncias tamb\u00e9m \u00e9 um diferencial dos <em>Hg. leucocelaenus<\/em>. Esses insetos podem alcan\u00e7ar um raio de dispers\u00e3o de at\u00e9 6 km, distanciando-se bastante dos seus criadouros. Para compara\u00e7\u00e3o, os <em>A. aegypti<\/em> costumam passar toda a vida adulta perto dos locais onde nasceram. Pesquisas apontam que em ambientes com alta densidade, com casas muito pr\u00f3ximas, esses mosquitos voam usualmente num raio de 40 a 50 metros. J\u00e1 em regi\u00f5es sem barreiras, como montanhas, praias ou grandes avenidas, eles atingem at\u00e9 800 metros.<\/p>\n<p><em>Haemagogus<\/em> e <em>Sabethes<\/em> s\u00e3o mosquitos diurnos, assim como os <em>A. aegypti<\/em>. No entanto, enquanto a esp\u00e9cie urbana prefere picar no come\u00e7o da manh\u00e3 e no final da tarde, os vetores silvestres apresentam maior atividade do meio-dia at\u00e9 o p\u00f4r do sol, com alguns estudos indicando dois picos: das 12h \u00e0s 14h e das 16h \u00e0s 17h. \u201c\u00c9 interessante observar que esses hor\u00e1rios coincidem, muitas vezes, com a atividade humana na mata, tanto para trabalho, quanto para lazer\u201d, comenta Goreti.<\/p>\n<p><strong>SAZONALIDADE<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a do vetor n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator necess\u00e1rio para a ocorr\u00eancia de casos de febre amarela. Para que a doen\u00e7a seja disseminada, \u00e9 preciso haver tamb\u00e9m v\u00edrus em circula\u00e7\u00e3o e indiv\u00edduos suscet\u00edveis, que possam ser infectados. Considerando esse trip\u00e9, os registros de febre amarela em \u00e1reas silvestres costumam ter um car\u00e1ter sazonal, com ocorr\u00eancia de surtos maiores em intervalos de cinco a dez anos. Geralmente, os casos acontecem entre dezembro e maio, meses chuvosos em grande parte do Brasil, o que favorece a prolifera\u00e7\u00e3o dos vetores. Al\u00e9m disso, embora haja registros da doen\u00e7a anualmente, epizootias de maior escala s\u00e3o observadas em intervalos de cinco a dez anos. Isso ocorre porque, ap\u00f3s um surto, grande parte dos primatas infectados morre e aqueles que sobrevivem adquirem imunidade para o resto da vida. Com isso, a circula\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a se torna limitada pela aus\u00eancia de indiv\u00edduos suscet\u00edveis e s\u00f3 volta a crescer conforme o n\u00famero de macacos jovens, que n\u00e3o tiveram contato com o agravo, aumenta.<\/p>\n<p><strong>Import\u00e2ncia da preven\u00e7\u00e3o e a possibilidade de urbaniza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQuando ocorre uma grande epizootia, o risco de casos humanos acontecerem aumenta, pois a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus se torna mais intensa. Por\u00e9m, \u00e9 importante destacar que, diferentemente dos animais, as pessoas possuem um meio eficaz de se prevenir: a vacina\u201d, enfatiza Dinair. Considerando a \u00e1rea de circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, a vacina\u00e7\u00e3o de rotina \u00e9 recomendada em 21 estados brasileiros. A lista de munic\u00edpios com recomenda\u00e7\u00e3o de vacina pode ser conferida no <a href=\"http:\/\/portalarquivos.saude.gov.br\/images\/pdf\/2017\/janeiro\/27\/Municipios-Conforme---reas-ACRV-ACRT-ASRV-Febre-Amarela-Jan-2017-.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a>. Pessoas que v\u00e3o viajar para estas localidades tamb\u00e9m devem se vacinar com, pelo menos, dez dias de anteced\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de seguir as recomenda\u00e7\u00f5es para imuniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante intensificar o combate ao A. aegypti nas cidades, para prevenir um poss\u00edvel retorno da forma urbana da febre amarela. Um estudo liderado pelo IOC em parceria com o Instituto Pasteur, na Fran\u00e7a, demonstrou, em testes de laborat\u00f3rio, que mosquitos fluminenses das esp\u00e9cies <em>Aedes aegypti<\/em>, <em>Aedes albopictus, Haemagogus leucocelaenus<\/em> e <em>Sabethes albipirvus<\/em> s\u00e3o altamente suscet\u00edveis \u00e0 transmiss\u00e3o das linhagens virais da febre amarela que circulam no Brasil e na \u00c1frica. A compet\u00eancia vetorial dos mosquitos Aedes tamb\u00e9m foi verificada em Manaus e, em menor grau, em Goi\u00e2nia. <a href=\"http:\/\/www.fiocruz.br\/ioc\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=2818&amp;query=simple&amp;search_by_authorname=all&amp;search_by_field=tax&amp;search_by_keywords=any&amp;search_by_priority=all&amp;search_by_section=all&amp;search_by_state=all&amp;search_text_options=all&amp;sid=32&amp;site=fio&amp;text=sabethes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Confira todos os detalhes do estudo<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cTeoricamente, a transmiss\u00e3o do agravo no ambiente urbano pode vir a ocorrer se uma pessoa doente for picada por um <em>A. aegypti<\/em>. Portanto, combater o mosquito \u00e9 fundamental para reduzir o risco da reintrodu\u00e7\u00e3o, assim como para enfrentar a dengue, a zika e a chikungunya\u201d, diz a pesquisadora Goreti Freitas, lembrando que eliminar os criadouros \u00e9 uma das principais formas de atacar o vetor. \u201cDiferentemente das esp\u00e9cies silvestres, que colocam seus ovos nos ocos das \u00e1rvores, o <em>A. aegypti<\/em> prefere os criadouros artificiais, comuns no ambiente urbano. Por isso, \u00e9 preciso vedar as caixas d\u2019\u00e1guas, colocar tela nos ralos e guardar adequadamente os objetos que podem acumular \u00e1gua\u201d, orienta ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IOC\/Fiocruz, por Ma\u00edra Menezes <\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte: Portal Fiocruz<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que o pa\u00eds contabiliza, de julho de 2017 a fevereiro de 2018, 164 mortes por febre amarela, com 545 casos confirmados e 422 em investiga\u00e7\u00e3o. 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