{"id":23838,"date":"2018-02-23T16:55:07","date_gmt":"2018-02-23T16:55:07","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=23838"},"modified":"2018-02-23T16:59:08","modified_gmt":"2018-02-23T16:59:08","slug":"projeto-busca-virus-que-possam-causar-pandemias-globais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=23838","title":{"rendered":"Projeto busca v\u00edrus que possam causar pandemias globais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A revista Science publicou, nesta sexta-feira (23\/2), <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/359\/6378\/872\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um artigo que descreve um projeto<\/a> que quer fazer diferente usando um velho conselho: \u00e9 melhor prevenir que remediar. O artigo trata do Projeto Viroma Global (PVG), iniciativa internacional que prop\u00f5e uma estrat\u00e9gia absolutamente diversa da que tem sido adotada ao combate dos riscos virais. A proposta do PVG \u00e9 identificar e caracterizar os v\u00edrus com potencial de risco, gerando conhecimento que possibilite antever as pr\u00f3ximas epidemias e mitigar seus danos. Os cientistas do PVG estimam que h\u00e1 aproximadamente 1,6 milh\u00e3o de v\u00edrus desconhecidos no mundo. Entre eles, de 600 a 800 mil deles podem infectar o homem. Os cientistas do PVG querem saber quem s\u00e3o eles e qual caminho podem seguir. O grupo de cientistas pretende caracterizar os pat\u00f3genos emergentes, identificar pr\u00e1ticas e comportamentos que levam a propaga\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e propor conjunto de medidas para caso de emerg\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta, embora audaciosa, est\u00e1 sustentada em evid\u00eancias robustas coletadas pelo Predict \u2013 um projeto piloto, conduzido pela Ag\u00eancia dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (USAIDS) com foco no fortalecimento de compet\u00eancias e estruturas laboratoriais para detectar e prever pandemias a partir de v\u00edrus que s\u00e3o transmitidos da rela\u00e7\u00e3o entre animais e humanos. Para alcan\u00e7ar seu objetivo, o PVG pretende ampliar e fortalecer laborat\u00f3rios de virologia existentes e criar uma base de dados de larga escala em ecologia e gen\u00e9tica de v\u00edrus de alto risco propondo transformar a ci\u00eancia b\u00e1sica em virologia em uma \u00e1rea de conhecimento baseada em big data.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Predict, em oito anos, com U$ 170 milh\u00f5es e mais de 30 pa\u00edses parceiros, conseguiu coletar aproximadamente 250 mil amostras de mais de 90 mil origens e identificou aproximadamente mil novos v\u00edrus. Capacitou mais de 4 mil profissionais e tem 50 laborat\u00f3rios em plena atividade. Os n\u00fameros demonstram o acerto na abordagem <em>OneHealth<\/em>, que considera a intr\u00ednseca rela\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o, animais e o meio ambiente para o mapeamento de v\u00edrus que representam perigo para a sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, 75% dos pat\u00f3genos emergentes \u00e9 transmitido por animais. De acordo com o artigo publicado na Science, o PVG estima que a maioria da diversidade viral de nossos reservat\u00f3rios zoon\u00f3ticos podem ser descobertos, caracterizados e avaliados em um prazo de dez anos. De acordo com o artigo, a iniciativa depender\u00e1 da ado\u00e7\u00e3o de tecnologias de ponta para sequenciamento al\u00e9m da colabora\u00e7\u00e3o entre virologistas, epidemiologistas e modeladores, novas estrat\u00e9gias para avaliar as rela\u00e7\u00f5es entre v\u00edrus e hospedeiros, e conhecimento nas \u00e1reas de biologia evolutiva, modelagem de biodiversidade, veterin\u00e1ria, entre outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil faz parte dessa iniciativa. O coordenador do Centro de Desenvolvimento de Tecnologias em Sa\u00fade (CDTS\/Fiocruz), Carlos Morel, \u00e9 co-autor do artigo da Science e participa da governan\u00e7a do projeto ao lado do diretor da Unidade de Desenvolvimento e Seguran\u00e7a da Sa\u00fade Global da Ag\u00eancia Americana para Ajuda Internacional, Dennis Carroll. O Brasil \u00e9 um hotspot para pesquisas e coleta de amostras dada a alta probabilidade de extrapola\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus de seus reservat\u00f3rios para o ser humano.\u00a0 Al\u00e9m disso, o pa\u00eds tem cientistas com importantes contribui\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as emergentes virais, como o especialista em virologia do CDTS Thiago Moreno, que a partir do sequenciamento e an\u00e1lise do comportamento do v\u00edrus da zika identificou a trajet\u00f3ria da epidemia e testa medicamentos j\u00e1 aprovados para tratar a doen\u00e7a e evitar que a transmiss\u00e3o do v\u00edrus para o feto. O Brasil tem biodiversidade, lideran\u00e7a, ci\u00eancia e experi\u00eancia em alian\u00e7as internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os organizadores do PVG est\u00e3o estabelecendo um desenho de gest\u00e3o transparente e com participa\u00e7\u00e3o equitativa de cada pa\u00eds envolvido. Quest\u00f5es \u00e9ticas, sociais, legais pautam as atividades cient\u00edficas. Na pr\u00e1tica, isso representa um esfor\u00e7o para construir protocolos de acesso a biodiversidade e patrim\u00f4nio gen\u00e9tico em conformidade com Protocolo de Nagoya e as regras dos pa\u00edses envolvidos, acordos para o compartilhamento de amostras, dados e potenciais benef\u00edcios na hip\u00f3tese de desenvolvimento e comercializa\u00e7\u00e3o de produtos e servi\u00e7os, al\u00e9m de pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual e compliance que estabelecem, de antem\u00e3o, os valores e princ\u00edpios que os parceiros devem observar, garantindo a prote\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e o meio ambiente e a primazia do interesse p\u00fablico e o bem comum. A estrat\u00e9gia de vigil\u00e2ncia orientada e baseada no risco, voltada para a detec\u00e7\u00e3o de v\u00edrus no seu ambiente natural pode conduzir a interven\u00e7\u00f5es eficientes antes do cont\u00e1gio de pessoas ou animais alimentares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O custo da empreitada foi avaliado em US$ 1,2 bilh\u00e3o, para aumentar a capacidade de identifica\u00e7\u00e3o de pat\u00f3genos, fortalecer capacidades e laborat\u00f3rios existentes, colher dados e gerar conhecimento. Entre os benef\u00edcios, mais conhecimento pode oferecer respostas mais eficientes e r\u00e1pidas aos surtos, nortear o desenvolvimento e aprimoramento de diagn\u00f3sticos, medicamentos e vacinas. Entendendo como o v\u00edrus se comporta, \u00e9 poss\u00edvel, inclusive, evitar que se espalhe e criar consci\u00eancia global e regional e informar pol\u00edticas para evitar ou mitigar a dissemina\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para fins de compara\u00e7\u00e3o, um recente estudo na \u00e1rea da economia da sa\u00fade avaliou que o Brasil gastou R$ 2,3 bilh\u00f5es com dengue, chikungunya e zika, apenas em 2016. Considerado conservador pelos pr\u00f3prios autores, o estudo calculou custos diretos, como atendimento e medicamentos e aus\u00eancia no trabalho, e indiretos, como o combate ao mosquito vetor, mas excluiu, por exemplo, despesas com tratamento da microcefalia e anos de vida perdidos. Pode-se dizer que o Brasil pagou o pre\u00e7o alto pela ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Boletim Epidemiol\u00f3gico 3\/2018 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade divulgou que mais de 3 mil crian\u00e7as nasceram com malforma\u00e7\u00e3o em virtude do v\u00edrus zika entre os anos de 2015 e 2017. Por malforma\u00e7\u00e3o compreende-se microcefalia, comprometimento do sistema nervoso central, epilepsia, defici\u00eancias auditivas e visuais, dificuldade de desenvolvimento psicomotor, al\u00e9m de preju\u00edzos nos ossos e articula\u00e7\u00f5es. Entre mais de 15 mil notifica\u00e7\u00f5es de suspeitas de zika, 507 crian\u00e7as morreram, desconsiderando abortos e natimortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse n\u00famero ganha corpo com a hist\u00f3ria de Henrique, de 2 anos. Diagnosticado com microcefalia causada pela zika, tem dificuldades de se manter de p\u00e9, sentar ou sustentar a cabe\u00e7a. Pouco fala e mal enxerga. As atividades de fisioterapia, fonoaudiologia, estimula\u00e7\u00e3o visual e terapia ocupacional que o menino faz desde o nascimento n\u00e3o t\u00eam promovido melhoras expressivas e a m\u00e3e de Henrique, apesar da esperan\u00e7a, pouco sabe sobre seu futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cientistas v\u00eam descobrindo e descrevendo os efeitos das epidemias virais na medida em que seus danos ocorrem. Do mesmo modo que autoridades administrativas na \u00e1rea da sa\u00fade tomam decis\u00f5es no auge dessas emerg\u00eancias. A fragilidade das a\u00e7\u00f5es em sa\u00fade p\u00fablica que reagem a propaga\u00e7\u00e3o de v\u00edrus novos e reemergentes n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil. Agora mesmo, assistimos os EUA definindo como lidar com o H3N2, um tipo de influenza A, no meio da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muito ainda para ser desenvolvido em termos de tecnologias para diagn\u00f3sticos e tratamentos. Medicamentos e vacinas levam de 10 a 20 para seu desenvolvimento completo. \u00c9 um processo longo, complexo, custoso e de alto risco. Por outro lado, aproximadamente tr\u00eas novas doen\u00e7as virais surgem a cada ano. De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, em apenas dois anos o n\u00famero de mortos pelo chikungunya subiu de 14 (2015) para 173 pessoas (2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tecnologias dispon\u00edveis n\u00e3o d\u00e3o conta dos efeitos causados pelas doen\u00e7as virais emergentes, seja porque pensadas para um grupo limitado de pacientes ou por falta de capacidade de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o que garanta o acesso imediato de alto volume de tratamento ou vacinas. O v\u00edrus H1N1, por exemplo, foi detectado em 2009 e infectou quase 2 bilh\u00f5es de pessoas em 73 pa\u00edses. Nesse mesmo prazo, como resposta sanit\u00e1ria, apenas 17% da popula\u00e7\u00e3o global foi imunizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar em pol\u00edtica p\u00fablicas de sa\u00fade e desenvolver medidas de repara\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a dispers\u00e3o do v\u00edrus exp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o a danos tr\u00e1gicos, como os de Henrique. Estudos recentes estimam que o mundo conhece apenas 1% dos v\u00edrus que podem causar doen\u00e7as. Mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas e ambientais, al\u00e9m do mercado global e tr\u00e2nsito internacional de pessoas, contribuem para o aumento e propaga\u00e7\u00e3o de v\u00edrus novos e reemergentes, como HIV, ebola, Mers, s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda grave (SARS), dengue, chikungunya, zika etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Detec\u00e7\u00e3o precoce \u00e9 elemento imprescind\u00edvel para combater as doen\u00e7as virais emergentes. Nossa capacidade de lidar com as pr\u00f3ximas epidemias est\u00e1 limitada pelo desconhecimento sobre essas amea\u00e7as. O PVG pretende abastecer a comunidade global com informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para detectar, prevenir e agir de maneira proativa \u00e0s epidemias emergentes, mitigando o risco de futuras epidemias reduzindo o impacto das doen\u00e7as como a zika, que afetou Henrique e sua fam\u00edlia. Se o objetivo for alcan\u00e7ado, o pre\u00e7o \u00e9 insignificante.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>CDTS\/Fiocruz, por Renata Curi Hauegen<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fonte: AFN<\/em><\/strong><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista Science publicou, nesta sexta-feira (23\/2), um artigo que descreve um projeto que quer fazer diferente usando um velho conselho: \u00e9 melhor prevenir que remediar. 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