{"id":21132,"date":"2017-08-14T21:02:48","date_gmt":"2017-08-14T21:02:48","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=21132"},"modified":"2017-08-14T21:02:48","modified_gmt":"2017-08-14T21:02:48","slug":"estigmas-associados-ao-transtorno-bipolar-e-tema-de-pesquisa-do-irr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=21132","title":{"rendered":"Estigmas associados ao transtorno bipolar \u00e9 tema de pesquisa do IRR"},"content":{"rendered":"<p>Uma pesquisa realizada pelo N\u00facleo de Estudos em Sa\u00fade P\u00fablica e Envelhecimento da Fiocruz Minas joga luz sobre um dos dist\u00farbios mentais mais conhecidos e discutidos na atualidade: o transtorno bipolar. O estudo, intitulado <em><a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-311X2017000605010&amp;lng=en&amp;tlng=en\">As concep\u00e7\u00f5es dos psiquiatras sobre o transtorno bipolar e o estigma a ele associado<\/a><\/em>, teve por objetivo compreender os significados e as implica\u00e7\u00f5es do estigma vinculado \u00e0 bipolaridade em rela\u00e7\u00e3o aos processos sociais e sistemas de valores culturais locais.<\/p>\n<p>Os pesquisadores entrevistaram psiquiatras que atuam em Belo Horizonte (MG) e, com base no referencial da Antropologia M\u00e9dica, fizeram a an\u00e1lise das respostas.\u00a0 Os resultados mostraram que, embora a bipolaridade esteja menos estigmatizada atualmente, ainda suscita questionamentos em algumas esferas da vida social, como no campo do trabalho, o que pode causar a de recusa do tratamento.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, o pesquisador Adauto Clemente, que esteve \u00e0 frente do estudo, fala sobre os resultados da pesquisa e tra\u00e7a um panorama sobre o transtorno bipolar.<\/p>\n<p><strong>Para iniciar, o que \u00e9 o transtorno bipolar? Quais seus principais sintomas?<\/strong><\/p>\n<p>O transtorno bipolar se caracteriza por varia\u00e7\u00f5es do humor que chegam a interferir significativamente nas rela\u00e7\u00f5es, nas capacidades e na qualidade de vida dos indiv\u00edduos. As varia\u00e7\u00f5es de humor a que estamos referindo s\u00e3o os estados depressivos, caracterizados principalmente por abatimento do humor ou tristeza e falta de prazer, que podem ser graduados como leves, moderados ou graves; os estados man\u00edacos, caracterizados por exalta\u00e7\u00e3o do humor, que consistem na hipomania (mais leve) e na mania moderada ou grave e os estados mistos, em que teremos uma mescla de sintomas de ordem depressiva e man\u00edaca. Tais estados, al\u00e9m dos sintomas-chave acima descritos, tamb\u00e9m se acompanham com frequ\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es do sono e do apetite, altera\u00e7\u00f5es do \u00e2nimo\/vontade e de altera\u00e7\u00f5es do pensamento, tais como extremo pessimismo e ideias suicidas na depress\u00e3o e ideias de grandiosidade e poder nos estados man\u00edacos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante frisar que as varia\u00e7\u00f5es do humor, ou seja, estar mais ou menos animado do ponto de vista f\u00edsico e\/ou ps\u00edquico ao longo do tempo, constitui uma caracter\u00edstica comum dos seres humanos e, nesse sentido, poder\u00edamos dizer que se trata de um fen\u00f4meno normal; especialmente (mas n\u00e3o exclusivamente) quando podemos identificar motivadores para tais varia\u00e7\u00f5es nas circunst\u00e2ncias de vida daquele indiv\u00edduo. Por exemplo, \u00e9 clara a influ\u00eancia que os dias mais ou menos iluminados de sol t\u00eam sobre o estado de \u00e2nimo das pessoas.<\/p>\n<p>Portanto, considera-se que algu\u00e9m \u00e9 portador do transtorno bipolar quando a recorr\u00eancia de tais varia\u00e7\u00f5es atinge uma intensidade suficiente para que possamos enquadr\u00e1-las como epis\u00f3dios depressivos e man\u00edacos\/hipoman\u00edacos. De acordo com a gravidade desses estados, frequ\u00eancia com que ocorrem e com a presen\u00e7a ou n\u00e3o de sintomas mistos e sintomas psic\u00f3ticos, teremos a classifica\u00e7\u00e3o do transtorno bipolar em diversos subtipos, pois a indica\u00e7\u00e3o do tratamento e sua efic\u00e1cia pode diferir de acordo com tais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p><strong>Trata-se de um transtorno que se manifesta em alguma fase espec\u00edfica da vida? Teria algum fator desencadeante? Quais os n\u00fameros (frequ\u00eancia na popula\u00e7\u00e3o) em rela\u00e7\u00e3o a este transtorno?<\/strong><\/p>\n<p>O transtorno bipolar pode se manifestar em qualquer idade e o diagn\u00f3stico \u00e9 habitualmente feito na fase adulta jovem. Os primeiros epis\u00f3dios depressivos ou man\u00edacos costumam ser associados a alguma circunst\u00e2ncia de vida, como mudan\u00e7as do estatuto social ou perdas, por\u00e9m isso n\u00e3o \u00e9 a regra, sendo comum que os epis\u00f3dios subsequentes deixem de ter rela\u00e7\u00e3o com algum desencadeante vivencial, ocorrendo sem qualquer motivo aparente. O atraso no diagn\u00f3stico \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o comum, especialmente quando os primeiros epis\u00f3dios s\u00e3o depressivos, pois acabam sendo reconhecidos e tratados como uma depress\u00e3o comum, sem a resposta satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Atualmente existe uma tend\u00eancia a se considerar que sintomas precoces do transtorno podem se manifestar desde idades muito jovens, mesmo durante a inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia e que, diante de uma primeira manifesta\u00e7\u00e3o depressiva, deve-se investigar a ocorr\u00eancia de tais ind\u00edcios precoces para n\u00e3o retardar o diagn\u00f3stico do transtorno. Isso tem a rela\u00e7\u00e3o com a pergunta sobre a frequ\u00eancia do transtorno bipolar. Al\u00e9m do estigma, dois outros aspectos sobre o transtorno bipolar foram contemplados na nossa investiga\u00e7\u00e3o: um deles foi a evolu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conceito do transtorno, cujos crit\u00e9rios para o diagn\u00f3stico foram sendo modificados ao longo do tempo, o que incluiu a emerg\u00eancia do conceito mais amplo de \u201cespectro bipolar\u201d, popularmente chamado de \u201cbipolaridade\u201d.<\/p>\n<p>O outro aspecto que estudamos foi a preval\u00eancia do transtorno bipolar na popula\u00e7\u00e3o geral que tradicionalmente, girava em torno de 1%.\u00a0 Por\u00e9m, pudemos constatar que as pesquisas passaram a registrar porcentagens progressivamente mais altas do transtorno bipolar na popula\u00e7\u00e3o geral ao longo dos \u00faltimos 30 anos. Uma das explica\u00e7\u00f5es para esse aumento foi a mudan\u00e7a nos crit\u00e9rios para o diagn\u00f3stico, que se tornaram mais amplos, de modo que pessoas que anteriormente receberiam outros diagn\u00f3sticos psiqui\u00e1tricos, passaram a ser identificadas como portadoras do transtorno bipolar. Outra explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 a melhora do reconhecimento do transtorno pelos psiquiatras e por outros profissionais de sa\u00fade gra\u00e7as a campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 visibilidade que o transtorno adquiriu nos \u00faltimos anos. H\u00e1 outras hip\u00f3teses como a de que, por algum motivo, a preval\u00eancia do transtorno esteja realmente aumentando.<\/p>\n<p><strong>O transtorno bipolar j\u00e1 foi nomeado de psicose man\u00edaco-depressiva, certo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o exatamente. A psicose man\u00edaco-depressiva foi retirada das classifica\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas oficiais a partir da d\u00e9cada de 80, ao mesmo tempo em que se adotou o conceito de transtorno bipolar, que abarcou a maior parte dos pacientes que antes receberiam o diagn\u00f3stico de psicose man\u00edaco-depressiva. N\u00e3o existe, por\u00e9m, uma correspond\u00eancia direta entre essas duas condi\u00e7\u00f5es. O transtorno bipolar \u00e9 um conceito mais amplo, que inclui pacientes que antes receberiam outros diagn\u00f3sticos, como algumas condi\u00e7\u00f5es anteriormente chamadas \u201cneur\u00f3ticas\u201d. Os termos neurose e psicose perderam a centralidade no diagn\u00f3stico e adotou-se o termo \u201ctranstorno\u201d para nomear as diversas perturba\u00e7\u00f5es mentais, ou seja, n\u00e3o houve apenas uma mudan\u00e7a de nome, mas no pr\u00f3prio conceito.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam os principais estigmas relacionados ao transtorno bipolar?<\/strong><\/p>\n<p>De forma geral, principais caracter\u00edsticas que os entrevistados associaram aos portadores de transtorno bipolar foram a instabilidade, a imprevisibilidade, a cronicidade e o potencial de produzir danos a si mesmo ou ao pr\u00f3prio patrim\u00f4nio durante os estados depressivos e man\u00edacos. Por\u00e9m, o estigma a que est\u00e3o sujeitos depender\u00e1 do ambiente cultural em que se inserem (por exemplo, o estigma de incapacidade \u00e9 prevalente no meio laboral) e vai variar de acordo com a fase do transtorno, com o tipo e gravidade dos sintomas (s\u00fabitos ou mais persistentes, presen\u00e7a de sintomas psic\u00f3ticos associados). Em nossa cultura, pudemos observar que os estados depressivos costumam despertar mais toler\u00e2ncia e empatia que as manifesta\u00e7\u00f5es man\u00edacas, o que \u00e9 menos evidente na sociedade americana, por exemplo, em que a produtividade e o consumo s\u00e3o mais valorizados e as condi\u00e7\u00f5es man\u00edacas mais bem toleradas.<\/p>\n<p><strong>De acordo com os resultados da pesquisa, na concep\u00e7\u00e3o dos entrevistados, podemos dizer que os pacientes diagnosticados com transtorno bipolar s\u00e3o menos estigmatizados que no passado? Neste caso, a que se deve esta mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Eles consideram que houve uma atenua\u00e7\u00e3o do estigma em rela\u00e7\u00e3o ao passado, o pode estar relacionado a muitos fatores; mas, na percep\u00e7\u00e3o deles, o abandono do r\u00f3tulo de \u201cpsic\u00f3tico\u201d foi determinante. A despeito disso, eles consideram que o estigma permanece muito significativo no campo do trabalho, o que frequentemente exige dos psiquiatras interven\u00e7\u00f5es diretas com inten\u00e7\u00e3o de proteger os portadores de transtorno bipolar de discrimina\u00e7\u00f5es que dificultam seu ingresso e a manuten\u00e7\u00e3o de suas posi\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho.<\/p>\n<p><strong>Podemos dizer que os pacientes aceitam o diagn\u00f3stico com mais naturalidade? Quais as repercuss\u00f5es disto no tratamento? O que \u00e9 a banaliza\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico apontada pelos entrevistados?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, os pacientes atualmente parecem aceitar bem o diagn\u00f3stico do transtorno bipolar, mas n\u00e3o sabemos em que medida isso repercute no tratamento, j\u00e1 que nem sempre existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre aceita\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico e ades\u00e3o. Al\u00e9m disso, v\u00e1rios outros fatores de ordem pr\u00e1tica interferem na ades\u00e3o ao tratamento psiqui\u00e1trico. Apesar de afirmar que os pacientes hoje em dia aceitam melhor o tratamento, os entrevistados relataram v\u00e1rias dificuldades na condu\u00e7\u00e3o do tratamento como, por exemplo, o comprometimento do \u201cinsight\u201d nas fases man\u00edaca e depressiva.<\/p>\n<p>A banaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o fen\u00f4meno pelo qual os pacientes adotam o diagn\u00f3stico do transtorno bipolar para entender ou explicar suas experi\u00eancias pessoais ou patol\u00f3gicas. Ao que parece, a redu\u00e7\u00e3o do estigma teve como consequ\u00eancia levar a que portadores de outros transtornos mais estigmatizados se identifiquem como portadores de transtorno bipolar como estrat\u00e9gia para minimizar as discrimina\u00e7\u00f5es que sofrem. Outro aspecto da banaliza\u00e7\u00e3o ocorre quando indiv\u00edduos atribuem ao saber psiqui\u00e1trico a explica\u00e7\u00e3o e a solu\u00e7\u00e3o para caracter\u00edsticas pessoais ou para problemas com que se deparam durante a vida e passam a demandar tratamento m\u00e9dico(medicaliza\u00e7\u00e3o), o que exige grande habilidade do profissional para evitar o expor esse indiv\u00edduos a interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Houve alguma raz\u00e3o especial que os levou a optar por pesquisar o estigma do transtorno bipolar sob o ponto de vista do psiquiatra?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, houve algumas raz\u00f5es. Poder\u00edamos elencar aqui a import\u00e2ncia de se estudar o estigma associado aos transtornos mentais, fen\u00f4meno que tem importantes repercuss\u00f5es sobre a vida dos portadores e que interfere no acesso e nos resultados do tratamento. O estigma relacionado ao transtorno bipolar \u00e9 menos estudado e conhecido que em outros transtornos mentais.\u00a0 Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, desde sua inclus\u00e3o nos manuais de classifica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, o transtorno bipolar assumiu grande import\u00e2ncia na pesquisa e na cl\u00ednica psiqui\u00e1trica e passou a ser um dos transtornos mais discutidos e conhecidos pelo p\u00fablico em geral. Visando conhecer e compreender as concep\u00e7\u00f5es sobre o transtorno bipolar e o estigma, e limitados pela burocracia e restri\u00e7\u00f5es de tempo, elegemos estudar os psiquiatras porque eles constituem um elo essencial entre as concep\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e as concep\u00e7\u00f5es populares sobre as quest\u00f5es m\u00e9dicas. Ao mesmo tempo, a pesquisa deste grupo, permitiu-nos reflex\u00f5es mais amplas sobre como os profissionais de sa\u00fade lidam com as dificuldades reais vivenciadas por seus pacientes e como assimilam as inova\u00e7\u00f5es produzidas pela ci\u00eancia, transformando-as e traduzindo-as em sua atividade cl\u00ednica e no relacionamento com esses pacientes.<\/p>\n<p>Imagem: Jessi RM\/Flickr<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pesquisa realizada pelo N\u00facleo de Estudos em Sa\u00fade P\u00fablica e Envelhecimento da Fiocruz Minas joga luz sobre um dos dist\u00farbios mentais mais conhecidos e discutidos na atualidade: o transtorno bipolar. 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