{"id":21002,"date":"2017-07-31T21:17:58","date_gmt":"2017-07-31T21:17:58","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=21002"},"modified":"2017-07-31T21:17:58","modified_gmt":"2017-07-31T21:17:58","slug":"concluido-o-maior-mapeamento-da-diversidade-genetica-do-virus-da-hepatite-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=21002","title":{"rendered":"Conclu\u00eddo o maior mapeamento da diversidade gen\u00e9tica do v\u00edrus da hepatite B"},"content":{"rendered":"<p>O mais completo levantamento da diversidade gen\u00e9tica dos v\u00edrus da hepatite B j\u00e1 realizado no Brasil mostra que a pluralidade de origens da popula\u00e7\u00e3o brasileira se reflete tamb\u00e9m nos microrganismos que circulam no pa\u00eds. Liderado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC\/Fiocruz), o estudo \u00e9 resultado da parceria entre onze laborat\u00f3rios e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa de todas as regi\u00f5es, com apoio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Mais de mil amostras foram analisadas, referentes a casos cr\u00f4nicos de hepatite B registrados em mais de cem cidades de 24 estados e no Distrito Federal. Os resultados apontam que os casos brasileiros est\u00e3o relacionados a sete dos dez gen\u00f3tipos do v\u00edrus da hepatite B identificados no mundo. A distribui\u00e7\u00e3o das variantes virais muda significativamente de uma regi\u00e3o para outra e, at\u00e9 mesmo, de um estado para o outro. Os resultados foram publicados na revista cient\u00edfica Journal of General Virology.<\/p>\n<p>Coordenadora do estudo, a chefe do <a href=\"http:\/\/www.fiocruz.br\/ioclabs\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?sid=66\">Laborat\u00f3rio de Hepatites Virais do IOC<\/a>, Elisabeth Lampe, explica que os v\u00edrus da hepatite B evolu\u00edram junto com as popula\u00e7\u00f5es humanas. Dessa forma, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das diferentes variantes gen\u00e9ticas \u2013 nomeadas por letras de A at\u00e9 J \u2013 est\u00e1 relacionada \u00e0s origens das popula\u00e7\u00f5es, sendo impactada pelas migra\u00e7\u00f5es e pelos deslocamentos populacionais. \u201cO Brasil apresenta um cen\u00e1rio muito diferente dos outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, onde o gen\u00f3tipo F do v\u00edrus da hepatite B \u2013 mais associado \u00e0s popula\u00e7\u00f5es americanas nativas \u2013 \u00e9 predominante. No territ\u00f3rio brasileiro, vemos grande presen\u00e7a de gen\u00f3tipos associados com popula\u00e7\u00f5es europeias e africanas, e chama aten\u00e7\u00e3o a ampla varia\u00e7\u00e3o regional\u201d, ressalta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Na literatura cient\u00edfica, apenas um trabalho, realizado no Canad\u00e1, apontou a presen\u00e7a de oito gen\u00f3tipos do v\u00edrus da hepatite B circulando em um mesmo pa\u00eds \u2013 um a mais do que o que acaba de ser verificado no Brasil. \u201cEm comum, temos dois pa\u00edses continentais, com popula\u00e7\u00f5es formadas por imigrantes de diferentes nacionalidades\u201d, comenta Francisco Mello, pesquisador do Laborat\u00f3rio de Hepatites Virais do IOC e coautor do estudo. \u201cNo Brasil, conseguimos observar a presen\u00e7a de sete gen\u00f3tipos virais em um \u00fanico estado: S\u00e3o Paulo, que al\u00e9m de ser o estado mais populoso da federa\u00e7\u00e3o \u00e9 formado por diversas comunidades de imigrantes e atrai um grande fluxo de visitantes internacionais\u201d, completa.<\/p>\n<p>O Laborat\u00f3rio de Hepatites Virais do IOC atua como refer\u00eancia nacional em Hepatites Virais junto ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e o esfor\u00e7o para tra\u00e7ar o mapa da diversidade gen\u00e9tica do v\u00edrus da hepatite B no pa\u00eds foi realizado em resposta a uma demanda do Departamento de Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis (ISTs), Aids e Hepatites Virais. Estudos anteriores traziam dados limitados a algumas regi\u00f5es do pa\u00eds e o trabalho mais abrangente produzido at\u00e9 ent\u00e3o continha amostras de apenas nove estados \u2013 agora apenas Piau\u00ed e Rio Grande do Norte n\u00e3o foram inclu\u00eddos na pesquisa. Para realizar o levantamento, os cientistas estabeleceram uma rede chamada de Grupo Brasileiro de Pesquisa em Hepatite B, com a participa\u00e7\u00e3o de nove laborat\u00f3rios p\u00fablicos, com representa\u00e7\u00e3o das cinco regi\u00f5es do Brasil. Com financiamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, as unidades foram equipadas e receberam treinamento para realizar os testes de genotipagem que permitiram construir o mapa nacional de circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Em sete estados, esta \u00e9 a primeira vez que os gen\u00f3tipos do v\u00edrus da hepatite B passam a ser conhecidos: no Amap\u00e1, Roraima, Cear\u00e1, Para\u00edba, Sergipe e Esp\u00edrito Santo este tipo de investiga\u00e7\u00e3o nunca havia sido realizado.<\/p>\n<p>\u201cCom essa grande colabora\u00e7\u00e3o, conseguimos obter e analisar mais de mil amostras, n\u00e3o apenas das capitais, mas tamb\u00e9m de dezenas de cidades do interior. Em grande medida, a origem das amostras reflete a distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira no territ\u00f3rio nacional. Por isso, obtivemos um mapeamento abrangente e representativo da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos v\u00edrus da hepatite B\u201d, destaca Elisabeth.<\/p>\n<p><strong>GEN\u00d3TIPOS PREDOMINANTES<\/strong><\/p>\n<p>Identificado em quase 59% dos casos analisados, o gen\u00f3tipo A do v\u00edrus da hepatite B foi o mais frequente no Brasil. Com perfil de distribui\u00e7\u00e3o considerado global, essa variante viral \u00e9 encontrada com mais frequ\u00eancia no Norte da Europa, Am\u00e9rica do Norte e \u00c1frica Subsaariana, e foi predominante na maioria dos estados do Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Em segundo lugar, o gen\u00f3tipo D foi detectado em 23% dos casos no pa\u00eds. No entanto, essa variante viral \u2013 que tamb\u00e9m apresenta distribui\u00e7\u00e3o global, mas \u00e9 associada principalmente com popula\u00e7\u00f5es da Europa, Mediterr\u00e2neo e Oriente M\u00e9dio \u2013 foi majorit\u00e1ria na regi\u00e3o Sul, respondendo por cerca de 80% dos registros. Ligado \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas americanas, o gen\u00f3tipo F foi o terceiro mais frequente no levantamento nacional, com 11% dos casos. Por\u00e9m, observando apenas o Nordeste, ficou em segundo lugar (cerca de 23% dos registros na regi\u00e3o).<\/p>\n<p>Com distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica internacional conhecidamente mais restrita, os v\u00edrus B, C, E e G foram encontrados em baixo n\u00famero de ocorr\u00eancias. Associado \u00e0 \u00c1frica Ocidental, o gen\u00f3tipo E respondeu por 1,8% das infec\u00e7\u00f5es, enquanto o gen\u00f3tipo G \u2013 identificado em alguns pa\u00edses das Am\u00e9ricas e Europa \u2013 foi identificado em 1,3%. Ambos ligados a popula\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas, os gen\u00f3tipos B e C alcan\u00e7aram apenas 1% dos casos analisados. \u201c\u00c9 interessante notar que, em S\u00e3o Paulo, esses gen\u00f3tipos raros no pa\u00eds responderam por 12% das amostras, refletindo o car\u00e1ter cosmopolita do estado\u201d, pontua Francisco. Um dos estados que tiveram o perfil gen\u00e9tico dos v\u00edrus mapeados pela primeira vez, o Cear\u00e1 apresentou um resultado surpreendente: foi o \u00fanico do pa\u00eds a apresentar predomin\u00e2ncia do gen\u00f3tipo F, identificado em aproximadamente 53% das infec\u00e7\u00f5es. \u201cHistoricamente, moradores do Cear\u00e1 se deslocam para \u00e1reas isoladas da regi\u00e3o amaz\u00f4nica em busca de trabalho, o que pode explicar um contato mais frequente com popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e a maior presen\u00e7a dessa variante viral no estado\u201d, acrescenta o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>CONTRIBUI\u00c7\u00c3O PARA A VIGIL\u00c2NCIA<\/strong><\/p>\n<p>Segundo os cientistas, o mapeamento dos perfis gen\u00e9ticos dos v\u00edrus da hepatite B no Brasil deve contribuir para o controle da doen\u00e7a no pa\u00eds. \u201cEsses dados s\u00e3o importantes para a chamada vigil\u00e2ncia molecular, que \u00e9 baseada na an\u00e1lise do genoma viral. Por exemplo, a detec\u00e7\u00e3o da introdu\u00e7\u00e3o ou da maior dissemina\u00e7\u00e3o de determinada variante viral em uma regi\u00e3o pode indicar a necessidade de refor\u00e7o nas medidas de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, especialmente a vacina\u00e7\u00e3o\u201d, explica Elisabeth. Ela afirma tamb\u00e9m que a rela\u00e7\u00e3o da variabilidade gen\u00e9tica dos v\u00edrus com a progress\u00e3o da doen\u00e7a tem sido investigada em diversos estudos. \u201cAlgumas pesquisas apontam que o gen\u00f3tipo viral pode influenciar no desenvolvimento de formas cr\u00f4nicas da hepatite B e na resposta ao tratamento. At\u00e9 o momento, os dados n\u00e3o s\u00e3o suficientes para justificar altera\u00e7\u00f5es nas condutas terap\u00eauticas, mas o conhecimento sobre a diversidade gen\u00e9tica dos v\u00edrus no Brasil pode ter ainda mais aplica\u00e7\u00f5es no futuro\u201d, completa.<\/p>\n<p>O v\u00edrus da hepatite B \u00e9 transmitido principalmente em rela\u00e7\u00f5es sexuais. Al\u00e9m disso, o cont\u00e1gio pode ocorrer por via sangu\u00ednea, incluindo compartilhamento de seringas, agulhas, l\u00e2minas de barbear, alicates de unha e outros objetos que furam ou cortam. A infec\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser passada da m\u00e3e para o filho, durante a gesta\u00e7\u00e3o, o parto ou a amamenta\u00e7\u00e3o. O v\u00edrus afeta principalmente o f\u00edgado e a maioria dos pacientes apresenta quadros agudos, que podem ser assintom\u00e1ticos ou ter sintomas como enj\u00f4o, v\u00f4mitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados. No entanto, 5% a 10% das pessoas infectadas evoluem para formas cr\u00f4nicas da doen\u00e7a, com dura\u00e7\u00e3o maior do que seis meses e possibilidade de complica\u00e7\u00f5es como cirrose e c\u00e2ncer no f\u00edgado.<\/p>\n<p><strong>DIA MUNDIAL DE LUTA<\/strong><\/p>\n<p>A data de 28 de julho \u00e9 declarada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) como Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais, com o objetivo de aumentar a conscientiza\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o e o engajamento dos pa\u00edses no enfrentamento destas doen\u00e7as. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, no ano passado, foram diagnosticados 42,8 mil novos casos de hepatites virais no Brasil, sendo aproximadamente 14 mil casos de hepatite B. Elisabeth destaca que o diagn\u00f3stico tardio \u00e9 um dos desafios no enfrentamento do agravo. \u201cNa maioria dos casos, a hepatite B \u00e9 uma doen\u00e7a silenciosa, que n\u00e3o apresenta sintomas antes do desenvolvimento das complica\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas. Por isso, \u00e9 fundamental realizar o teste, que \u00e9 oferecido gratuitamente no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS)\u201d, enfatiza Elisabeth.<\/p>\n<p>Os cientistas ressaltam que a infectividade do v\u00edrus da hepatite B \u00e9 maior que a do HIV, mas \u00e9 poss\u00edvel evitar a doen\u00e7a com a vacina\u00e7\u00e3o e outras medidas de prote\u00e7\u00e3o. \u201cAtualmente, a vacina contra hepatite B faz parte do calend\u00e1rio de imuniza\u00e7\u00e3o infantil e est\u00e1 dispon\u00edvel para toda a popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 49 anos nos postos de sa\u00fade. Portanto, \u00e9 fundamental que todos procurem se vacinar\u201d, afirma Francisco. Usar camisinha em todas as rela\u00e7\u00f5es sexuais e n\u00e3o compartilhar objetos de uso pessoal, como l\u00e2minas de barbear e depilar, escovas de dente, material de manicure e pedicure, seringas e agulhas s\u00e3o outras a\u00e7\u00f5es importantes para prevenir o cont\u00e1gio. Os exames para detectar a infec\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m devem ser realizados no pr\u00e9-natal e, em caso positivo, h\u00e1 recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas especiais para o parto e a amamenta\u00e7\u00e3o com objetivo de evitar a transmiss\u00e3o para o beb\u00ea.<\/p>\n<p><em>Artigo: Lampe et al. Nationwide overview of the distribution of hepatitis B virus genotypes in Brazil: a 1000-sample multicentre study. Journal of General Virology 2017; 98: 1389-1398<\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0IOC\/Fiocruz, por: Ma\u00edra Menezes<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>*Edi\u00e7\u00e3o: Raquel Aguiar<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mais completo levantamento da diversidade gen\u00e9tica dos v\u00edrus da hepatite B j\u00e1 realizado no Brasil mostra que a pluralidade de origens da popula\u00e7\u00e3o brasileira se reflete tamb\u00e9m nos microrganismos que circulam no pa\u00eds. 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