{"id":20222,"date":"2017-05-16T21:31:48","date_gmt":"2017-05-16T21:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=20222"},"modified":"2017-05-16T21:31:48","modified_gmt":"2017-05-16T21:31:48","slug":"febre-amarela-pesquisa-identifica-mutacoes-na-sequencia-genetica-do-virus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonia.fiocruz.br\/?p=20222","title":{"rendered":"Febre amarela: pesquisa identifica muta\u00e7\u00f5es na sequ\u00eancia gen\u00e9tica do v\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p>O Instituto Oswaldo Cruz (IOC\/Fiocruz) realizou os primeiros sequenciamentos completos do genoma de amostras do v\u00edrus da febre amarela referentes ao atual surto da doen\u00e7a no Brasil. Foram investigadas duas amostras de macacos oriundos do Esp\u00edrito Santo, mortos em final de fevereiro de 2017. A an\u00e1lise apontou que os microrganismos pertencem ao subtipo gen\u00e9tico conhecido como linhagem Sul Americana 1E, que \u00e9 predominante no pa\u00eds desde 2008.<\/p>\n<p>No entanto, a partir da an\u00e1lise da sequ\u00eancia completa do genoma do v\u00edrus foi poss\u00edvel constatar a presen\u00e7a de varia\u00e7\u00f5es em sequ\u00eancias gen\u00e9ticas que est\u00e3o associadas a prote\u00ednas envolvidas na replica\u00e7\u00e3o viral. N\u00e3o h\u00e1 registro anterior dessas muta\u00e7\u00f5es na literatura cient\u00edfica mundial. Os pesquisadores envolvidos na descoberta refor\u00e7am que os impactos para a sa\u00fade p\u00fablica ainda precisam ser investigados e apontam para a necessidade de se avaliar mais amostras, relativas a locais diferentes e incluindo casos em humanos, macacos e mosquitos.<\/p>\n<p>Os resultados das an\u00e1lises foram divulgados na revista cient\u00edfica Mem\u00f3rias do Instituto Oswaldo Cruz. Os dados foram comunicados pela Presid\u00eancia da Fiocruz ao Departamento de Vigil\u00e2ncia das Doen\u00e7as Transmiss\u00edveis do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Adicionalmente, dados ainda n\u00e3o publicados apontam os mesmos resultados para a an\u00e1lise de mosquitos coletados no Esp\u00edrito Santo e para um macaco que veio a \u00f3bito no Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O estudo partiu de uma constata\u00e7\u00e3o que vem ganhando cada vez mais espa\u00e7o: a atual situa\u00e7\u00e3o de febre amarela no pa\u00eds conta com lacunas de entendimento sobre sua din\u00e2mica de dispers\u00e3o. O surto \u00e9 o mais severo das \u00faltimas d\u00e9cadas, e a doen\u00e7a tem se espalhado de forma r\u00e1pida, com epizootias e casos humanos diagnosticados inclusive em locais considerados livres do agravo h\u00e1 quase 70 anos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Biologia Molecular de Flaviv\u00edrus e do Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios do IOC se dedicaram a buscar evid\u00eancias que possam contribuir para esclarecer uma pergunta importante: existe algo de diferente no v\u00edrus da febre amarela que est\u00e1 circulando atualmente? \u201cNesse momento, o compromisso de cada um de n\u00f3s, pesquisadores, deve ser de gerar conhecimento na sua \u00e1rea de especialidade e compartilhar essas descobertas, de forma acelerada, para que possamos contribuir para preencher um mosaico de evid\u00eancias que permita ajudar a explicar o cen\u00e1rio atual\u201d, afirma a pesquisadora Myrna Bonaldo, chefe do Laborat\u00f3rio de Biologia Molecular de Flaviv\u00edrus do IOC, que coordenou o estudo com o pesquisador Ricardo Louren\u00e7o, chefe do Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios do IOC. Ambos integram a Sala de Situa\u00e7\u00e3o para Febre Amarela Silvestre criada pela Presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p><strong>Origem das amostras sequenciadas<\/strong><\/p>\n<p>Em uma colabora\u00e7\u00e3o com a Secretaria de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (SVS), o Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios vem atuando na coleta de amostras de primatas e mosquitos em locais estrat\u00e9gicos para o estudo do risco de transmiss\u00e3o e de re-emerg\u00eancia do ciclo urbano da febre amarela. Foi neste contexto que, em final de fevereiro de 2017, o grupo coletou sangue de dois macacos bugios (da esp\u00e9cie Alouatta clamitans) que adoeceram em uma \u00e1rea de mata no Esp\u00edrito Santo, confirmou a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus e obteve o material gen\u00e9tico para o sequenciamento do genoma.<\/p>\n<p>\u201cOs bugios s\u00e3o especialmente importantes nas investiga\u00e7\u00f5es sobre a febre amarela por serem considerados \u2018sentinelas\u2019: como s\u00e3o muito vulner\u00e1veis ao v\u00edrus, est\u00e3o entre os primeiros a morrer quando afetados pela doen\u00e7a. Al\u00e9m disso, estes animais amplificam eficientemente o v\u00edrus em seu organismo, favorecendo a infec\u00e7\u00e3o de mosquitos que habitam as matas e a dissemina\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o silvestre, na qual os seres humanos s\u00e3o infectados acidentalmente. Por isso, sua morte dispara um alerta para a poss\u00edvel presen\u00e7a do v\u00edrus em uma localidade\u201d, descreve Ricardo, que combina as experi\u00eancias como veterin\u00e1rio e entomologista.<\/p>\n<p>As coletas foram realizadas por Filipe Abreu, estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Biologia Parasit\u00e1ria do IOC, que atua na equipe liderada por Ricardo. &#8220;Como h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o se registrava febre amarela na mata atl\u00e2ntica, pensei que n\u00e3o veria suas consequ\u00eancias na pr\u00e1tica. Foi um enorme aprendizado ter a oportunidade de visualizar e trabalhar, em campo, com objeto de estudo da minha tese&#8221;, o jovem bi\u00f3logo comenta. [Conhe\u00e7a as atividades desenvolvidas pelo grupo em Casimiro de Abreu, munic\u00edpio onde foi registrado o primeiro \u00f3bito pela doen\u00e7a no Estado do Rio de Janeiro].<\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise do genoma do v\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a extra\u00e7\u00e3o do material gen\u00e9tico (RNA) das amostras, foi realizado o processo de sequenciamento completo do genoma, atividade que contou com o apoio da Plataforma Tecnol\u00f3gica de Sequenciamento de DNA do IOC. As an\u00e1lises apontam para tr\u00eas principais evid\u00eancias. Como primeira evid\u00eancia, foi observada 100% de identidade entre as sequ\u00eancias gen\u00e9ticas dos v\u00edrus presentes nos animais \u2013 ou seja: os v\u00edrus tinham sequ\u00eancias gen\u00e9ticas id\u00eanticas.<\/p>\n<p>A segunda evid\u00eancia foi a constata\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de modifica\u00e7\u00f5es no c\u00f3digo gen\u00e9tico dos v\u00edrus. Essas muta\u00e7\u00f5es foram identificadas quando a sequ\u00eancia gen\u00e9tica completa obtida foi comparada \u00e0 sequ\u00eancia gen\u00e9tica completa de v\u00edrus relacionados a surtos ocorridos desde a d\u00e9cada de 1980 no Brasil e na Venezuela, pa\u00eds onde a linhagem Sul Americana 1E tamb\u00e9m \u00e9 predominante. Para a compara\u00e7\u00e3o, foram usados bancos de dados internacionais dedicados ao dep\u00f3sito de sequ\u00eancias gen\u00e9ticas. \u201cAs modifica\u00e7\u00f5es que observamos s\u00e3o in\u00e9ditas, n\u00e3o est\u00e3o descritas em achados anteriores\u201d, Myrna detalha.<\/p>\n<p>A terceira evid\u00eancia foi obtida na an\u00e1lise das prote\u00ednas virais, em um passo seguinte \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as na sequ\u00eancia gen\u00e9tica. \u201cDe forma muito simplificada, o genoma \u00e9 um c\u00f3digo que tem o papel de orientar a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas. Essas prote\u00ednas s\u00e3o a base da pr\u00f3pria estrutura do v\u00edrus, formando seus elementos constitutivos, como as paredes do v\u00edrus, por exemplo. Podemos comparar o genoma a um roteiro: o v\u00edrus tem um repert\u00f3rio de prote\u00ednas que s\u00e3o fabricadas a partir da informa\u00e7\u00e3o do genoma. Algumas mudan\u00e7as gen\u00e9ticas n\u00e3o impactam as prote\u00ednas do v\u00edrus. Por isso, \u00e9 importante observar se as varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas poderiam modificar o repert\u00f3rio das prote\u00ednas fabricadas\u201d, descreve a virologista molecular, que \u00e9 especialista em flaviv\u00edrus, grupo dos v\u00edrus dengue, Zika e febre amarela.<\/p>\n<p>Tendo em vista que foram verificadas modifica\u00e7\u00f5es na composi\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas importantes para a replica\u00e7\u00e3o viral, os pesquisadores consideram que \u00e9 poss\u00edvel haver uma vantagem seletiva, refletindo-se na capacidade de infec\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Entretanto, novas pesquisas s\u00e3o fundamentais para determinar se essas modifica\u00e7\u00f5es no genoma s\u00e3o espec\u00edficas dos microrganismos envolvidos no surto atual. \u201cNesse momento, estamos buscando amostras de genoma do v\u00edrus da febre amarela oriundas de diferentes hospedeiros \u2013 incluindo seres humanos, macacos e mosquitos \u2013 e de diversificadas origens geogr\u00e1ficas \u2013 especialmente no Sudeste do Brasil, onde a epidemia tem sido mais intensa \u2013 para compreender melhor esse fen\u00f4meno\u201d, informa Ricardo.<\/p>\n<p>Sobre um poss\u00edvel impacto para a vacina dispon\u00edvel, os pesquisadores explicam que o imunizante adotado atualmente protege contra gen\u00f3tipos diferentes do v\u00edrus, incluindo o sul americano e o africano. Al\u00e9m disso, as altera\u00e7\u00f5es detectadas no estudo n\u00e3o afetam as prote\u00ednas do envelope do v\u00edrus, que s\u00e3o centrais para o funcionamento da vacina. Eles ressaltam que as sequ\u00eancias gen\u00e9ticas completas dos v\u00edrus analisados no estudo j\u00e1 foram publicadas no GenBank, de modo a estarem dispon\u00edveis para compara\u00e7\u00f5es que possam ser realizadas por outros cientistas do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p><em><strong>Fonte: IOC\/Fiocruz<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Foto: Gutemberg Brito (IOC\/Fiocruz)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Instituto Oswaldo Cruz (IOC\/Fiocruz) realizou os primeiros sequenciamentos completos do genoma de amostras do v\u00edrus da febre amarela referentes ao atual surto da doen\u00e7a no Brasil. Foram investigadas duas amostras de macacos oriundos do Esp\u00edrito Santo, mortos em final de fevereiro de 2017. 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