Abertura do 10º Congresso da Abrasco destaca a importância das ações afirmativas para garantir acesso à formação acadêmica para populações indígenas

Estado com a maior população indígena do País, o Amazonas abriu, na noite desta quarta-feira, 16/09, o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), destacando a importância das ações afirmativas voltadas à garantia do direito ao acesso à formação acadêmica e científica para as populações indígenas, que vivenciam e conhecem as práticas e saberes dos seus territórios e podem produzir respostas em saúde pública a partir dos mesmos. A solenidade de abertura aconteceu no Auditório Eulálio Chaves, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), para uma plateia lotada, e contou com a diplomação simbólica dos sanitaristas indígenas do Alto Solimões formados pela primeira turma de Mestrado em Saúde Coletiva do Brasil, oferecida pelo Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), da Fiocruz Amazônia.

Representada pela diretora Stefanie Lopes, que compôs o dispositivo de honra do evento, a Fiocruz Amazônia é, juntamente com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Universidade do Estado do Amazonas (UEA), instituição anfitriã do 10º CSHS. O evento acontece pela primeira vez na Região Norte e teve um total de 3.584 participantes inscritos e mais de 1.400 trabalhos aprovados, com atividades ocorrendo ao longo do campus da instituição, situada numa área preservada de floresta nativa, com aproximadamente 670 hectares, em plena área urbana de Manaus. O evento se estenderá até o sábado, 19/09, com programação variada de mesas-redondas, sessões especiais e grandes debates, reunindo pesquisadores e estudiosos de todo o País.

O dispositivo de abertura contou com as presenças do presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Souza, o presidente do 10º CSHS, Henrique Saldanha, o presidente da Comissão Organizadora Local, André Luiz Machado das Neves, o integrante da Comissão Organizadora Local, Breno de Oliveira, e a presidente da Comissão Científica, Marta Verdi. Também o compuseram a reitora da UFAM, Tanara Lauschner, o diretor da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA), da UEA, professor Antônio Palhares, representando o reitor da UEA, André Zogayb, a secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Maria Aparecida Cina da Silva, representando o ministro Alexandre Padilha, e a conselheira Ana Carolina Freire, em nome do Conselho Federal de Psicologia.

A diretora da Fiocruz Amazônia ressaltou a importância da realização do 10º CSHS em Manaus. “Temos o prazer de ser uma das instituições locais de organização do evento junto a Universidade do Estado e a Universidade Federal do Amazonas. Um evento riquíssimo como este, que bateu recorde de inscrições de trabalhos, de número de participantes. É ímpar poder participar e trazê-lo para a Região Norte, pela primeira vez. Um evento rico, diverso e único, que desloca cabeças pensantes para pensar por uma Amazônia da Amazônia e ainda termos o prazer de mostrar para todos das áreas de Ciências Sociais e Humanas a nossa turma de sanitaristas indígenas, que agora são titulados e recebem seu certificado. Um orgulho para a Fiocruz Amazônia e uma iniciativa inovadora que vai ter um efeito longínquo na vida dessas pessoas e para a saúde indígena”, reforçou.

A pesquisadora sênior da Fiocruz Amazônia, Luiza Garnelo, responsável pela coordenação da turma do Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), destacou que a vinda do Congresso para a Amazônia se constitui num marco. “É o primeiro congresso na Amazônia, o que se reveste de importância porque marca a presença dos sanitaristas amazônicos no cenário nacional e no reconhecimento da nossa situação. Para nós, do ILMD/Fiocruz Amazônia e, para mim, que atuei junto com essa turma de sanitaristas, é ainda mais importante porque demarca no cenário público a presença nacional desses sanitaristas que conseguiram concluir seus cursos com sucesso”, afirmou. Junto com os mestres sanitaristas, subiram ao palco também mais de 100 indígenas pesquisadores e estudiosos da Saúde Coletiva, egressos e formandos do primeiro curso em Gestão em Saúde Coletiva oferecido pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), apresentados pela secretária adjunta da Secretaria de Saúde Indígena, Eliene do Santos Rodrigues, a Putira Sacoena, indígena do povo Baré.

“A diversidade humana é uma realidade biológica, cultural e social e precisamos reconhecer essa diversidade, produzir ciência e políticas públicas capazes de enxergar as pessoas, em seus diferentes contextos e territórios e com suas histórias. Não só torná-las números, indicadores e ou estatística. Durante muito tempo, nós povos indígenas, fomos colocados como objetos de pesquisa e precisamos desconstruir isso. Temos indígenas nas universidades, nos cursos de pós-graduação, nos programas de pesquisa, na saúde, na biologia, na educação, na genética, temos pesquisadores indígenas produzindo teorias, dialogando com a ciência nos territórios” sublinhou Putira.

Para a representante da SESAI, o curso da UFRR é um espaço estratégico construído pelos povos indígenas, de produção de resposta em saúde. “Ter indígenas formados como sanitaristas significa fortalecer uma saúde indígena pensada a partir dos territórios, com profissionais que entendem as necessidades dos povos indígenas e que não precisam apenas serem ouvidos quando as políticas são construídas”, frisou.

REPRESENTATIVIDADE

Os certificados dos sanitaristas indígenas da Fiocruz Amazônia foram entregues pelo presidente da Abrasco, Rômulo Paes, Stefenie Lopes, Putira Sacoema, Marta Verdi e Henrique Saldanha. Receberam Ozeir Cavalcante Fernandes, da etnia Tikuna, do município de Benjamim Constant, representado pelo orientador da Fiocruz Amazônia Fernando Herkrath; Josimar Carneiro Fernandes, Tikuna;  Alciney Dorlis Marubo, do Vale do Javari; Delcilene Jovito Mariano, Tikuna; Josileno Estevão Marubo, do Vale do Javari, Atalaia do Norte (AM) e Taffarel Nogueira de Carvalho, Kokama.

Rômulo Paes destacou a importância da representatividade indígena no 10º CSHS e reconheceu que a decisão de realizar o evento na Amazônia foi mais que acertada. “Estamos tendo aqui a oportunidade de valorização da ciência produzida na região e de mostrar que a acessibilidade e o combate a qualquer tipo de atitude discriminatória é um compromisso da Abrasco. Já a reitora da UFAM, Tanara Lauschner, saudou os congressistas convidando-os a conhecer o campus e lembrando o papel fundamental da presença da universidade na proteção do fragmento de floresta nativa.

Para a reitora, o acesso à universalização do direito a saúde na Amazônia exige a conexão com o território. “Aqui, as distancia não se medem em quilômetros, mas sim em horas e dias, com as diferenças de quando o rio está cheio ou seco, e as distâncias podem ser maiores. Não basta olhar no mapa, é preciso pisar aqui, ouvir quem vive aqui e quem produz ciência aqui”, destacou, acrescentando que a cidade de São Gabriel da Cachoeira, considerada a mais indígena do Brasil, passará em breve a contar com um campus avançado da UFAM.

ILMD/Fiocruz Amazônia

Fotos: Júlio Pedrosa / Fiocruz Amazônia