Fiocruz Amazônia presta homenagem aos 110 anos da cientista Maria Deane no aniversário de 32 anos da instituição
A Fiocruz Amazônia completou 32 anos nesta quarta-feira, 19/08, com uma homenagem à cientista paraense Maria José Von Paumgartten Deane, a Maria Deane, que junto com o marido Leônidas, dá nome ao instituto onde está sediada a unidade regional da Fiocruz, em Manaus, Amazonas. Uma exposição de fotos históricas que resgatam o trabalho de pesquisa desbravador da cientista, nas décadas de 30/40/50, pelo Nordeste e na Amazônia brasileira, evidenciando o pioneirismo feminino na Ciência Brasileira e resgatando a importância da valorização da memória para a instituição, e as palestras das historiadoras e pesquisadoras da Fiocruz, Dominichi Miranda de Sá, vice-diretora de Pesquisa e Educação da Casa de Oswaldo Cruz, e Magali Romero de Sá, marcaram a realização das atividades comemorativas, ocorridas no Salão Canoas.

As atividades fizeram parte da programação da 23ª Reunião Anual de Iniciação Científica (Raic) e 4ª Jornada de Programa de Vocação Científica da Fiocruz Amazônia, que acontece entre os dias 18 e 21/08, na sede do ILMD/Fiocruz Amazônia, reunindo 83 alunos. A diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, destacou a importância da integração entre as atividades e da oportunidade de reunir a comunidade em torno do tema do protagonismo feminino na ciência, que será abordado durante a edição deste ano da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. “Celebrar Maria Deane no aniversário de 32 anos do ILMD/Fiocruz Amazônia tem valor histórico e, neste momento de integração em que recebemos o Projeto Memória, com as pesquisadoras da Casa de Oswaldo Cruz, a integração de agendas da Raic e da Provoc, num momento de renovação com a chegada dos novos alunos, novos servidores, é um casamento perfeito”, afirmou Stefanie.

As comemorações foram marcadas também pela apresentação de um vídeo trazendo relatos dos pesquisadores Antônia Franco, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Sérgio Luz, da Fiocruz Amazônia, ambos alunos de Maria e Leônidas Deane, durante suas formações no Mestrado e Doutorado. Na sequência, foi feita a apresentação do Projeto História em Imagens e Vozes: Acesso e Preservação do Acervo Fotográfico e Oral da Fiocruz Amazônia, desenvolvido pela Vice-Diretoria de Educação, Informação e Comunicação (VDEIC), por meio do edital de Apoio a Projetos de Memória Institucional da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC) e Presidência da Fiocruz, lançado recentemente.

Para marcar os 110 anos de Maria Deane, a exposição trouxe fotos históricas reproduzidas do acervo fotográfico da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), no Rio de Janeiro, registrando momentos icônicos como o das pesquisas em que a cientista aparece em um foco de leishmaniose visceral no Ceará, em 1939; na inauguração de um laboratório de investigação na Venezuela, em 1979; a bordo de uma embarcação no Rio Paraguai, em 1938, entre outras atividades de campo, em que ela aparece como única mulher entre pesquisadores homens. “Maria Deane foi a primeira cientista brasileira a participar de atividades de campo em expedições científicas em áreas remotas do País”, destacou a historiadora Magali Romero de Sá, durante sua palestra intitulada Maria Deane: Ciência, Território, Saúde – Trajetórias de uma Pioneira na Parasitologia.

A escolha do protagonismo de Maria Deane na ciência para homenagear os 32 anos do ILMD foi enaltecida também pela historiadora Dominichi Miranda de Sá. “Temos muito orgulho da Fiocruz Amazônia e o trabalho que vem realizando no sentido de fazer as pessoas repensarem o sentido da relação entre ciência, saúde e ambiente na Amazônia, com a expectativa de parcerias históricas junto à COC/Fiocruz. Um casamento que deu certo desde sempre”, afirmou.

“Celebrar 32 anos de uma instituição como a Fiocruz Amazônia é olhar para uma história construída coletivamente. E este aniversário tem um significado ainda mais especial porque o celebramos juntamente com os 110 anos de nascimento de maria Deane, uma mulher e uma cientista cuja trajetória está profundamente ligada à história da pesquisa em saúde na Amazônia. Maria Deane representa muito do que queremos preservar como identidade desta instituição: uma ciência comprometida com os problemas concretos da população, uma ciência que vai ao território, que observa, investiga, escuta e busca respostas. Uma ciência que compreende que a Amazônia não pode ser estudada à distância. É preciso estar aqui e conhecer seis territórios e populações”, discursou, emocionada, Stefanie Lopes, citando os compromissos e desafios futuros da instituição, momentos antes do corte do bolo de aniversário.

SOBRE MARIA DEANE
Maria José Von Paumgartten Deane nasceu no dia 24 de julho de 1916, em Belém (PA). De origem austríaca, italiana e portuguesa, filha de Segismundo von Paumgartten e Adelaide Rodrigues von Paumgartten, durante a infância e adolescência estudou em Belém no Colégio Paumgartten (1921-1925) e no Ginásio Paes de Carvalho (1926-1931). Em 1932, aos 15 anos, ingressou na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, atual Universidade Federal do Pará, onde se formou em 1937. Três anos depois, em Fortaleza (CE), casou-se com o cientista paraense Leônidas de Mello Deane, seu colega de faculdade, com quem teve uma única filha.

Se viva fosse, Maria Deane estaria completando 110 anos este ano. Ainda estudante, Maria Paumgartten integrou a equipe liderada por Evandro Chagas. Concluiu a faculdade em 1937. Dois anos depois, passou a atuar no Serviço de Malária do Nordeste, onde participou de estudos entomo-epidemiológicos na vitoriosa campanha de combate ao mosquito Anopheles gambiae no Ceará e no Rio Grande do Norte. Com a extinção do serviço, em 1942, devido à erradicação do mosquito, Maria Deane assumiu a função de assistente do Departamento de Parasitologia do SESP e três anos depois foi indicada para comandar a Seção de Parasitologia do Laboratório Central da instituição, realizando cursos nas universidades de Johns Hopkins e Michigan, nos Estados Unidos.
Durante esses anos, Maria dedicou-se ao estudo da malária, leishmanioses e filariose, e de seus vetores e reservatórios. Quanto à malária, são traços inovadores de seus trabalhos a distribuição geográfica e diversidade de espécies de mosquitos da Amazônia e do Nordeste, com a descrição de três espécies novas de anofelinos – Anopheles sawyeri, Anopheles galvaoi e Chagasia rozeboomi. Maria Deane seguiu sua trajetória profissional. De 1958 a 1959 chefiou o Laboratório de Entomologia da Campanha de Erradicação da Malária do Ministério da Saúde. Em 1961 foi para o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. O golpe militar de março de 1964 significou a destituição do presidente João Goulart, a subversão da ordem política e o início da ditadura militar.

Neste ano, Luisa, filha do casal Deane deixou Brasil. O episódio, aliado ao fechamento do Departamento de Parasitologia da USP, devido a perseguições políticas de seus membros, fez com que Maria e Leônidas buscassem, no exterior, uma colocação que lhes permitissem acompanhar a filha. O exílio voluntário levou-os ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa (1973-1976) e à Universidade de Carabobo, na Venezuela (1976-1979).
Com a aprovação da Lei de Anistia, em 1979, Maria Deane regressa ao país. Em 1980, ingressa na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) após receber o convite de José Rodrigues Coura, vice-presidente de Pesquisa, para dirigir os recém-criados departamentos de Entomologia e Protozoologia do Instituto Oswaldo Cruz. Ali, colaborou com a retomada da credibilidade institucional e da excelência científica de “Manguinhos”. Maria Deane foi chefe do Departamento de Protozoologia (1980-1988), vice-diretora do IOC (1986-1988) e chefe do Laboratório de Biologia de Tripanossomas (1992-1995). Faleceu em 13 de agosto de 1995, no Rio de Janeiro, tendo por mais de cinco décadas obtido conquistas e prestado contribuições relevantes à ciência.
Por ILMD/Fiocruz Amazônia
Fotos: Júlio Pedrosa / Fiocruz Amazônia


