Estudo mapeia dispersão da febre amarela no Brasil

Desde 2000, o Brasil teve, pelo menos, três surtos de febre amarela silvestre em que a doença alcançou áreas das regiões Sudeste e Sul que não registravam casos há décadas. Recém-publicada na revista internacional Scientific Reports, uma pesquisa realizada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) mostra que estes episódios, relacionados a uma distribuição espacial ampliada, ocorreram após uma mudança no padrão de entrada e de espalhamento do vírus da febre amarela no território brasileiro. A partir da análise das sequências genéticas de vírus relacionados a 137 casos registrados em nove países das Américas entre 1954 e 2017, os cientistas identificaram que variantes virais pertencentes a uma linhagem moderna, introduzidas no Brasil por diferentes caminhos a partir de países vizinhos, estiveram por trás dos casos notificados nos últimos surtos. O trabalho é resultado de um esforço conjunto dos Laboratórios de Aids e Imunologia Molecular, de Biologia Molecular de Flavivírus, de Mosquitos Transmissores de Hematozoários e de Genética Molecular de Microrganismos do IOC/Fiocruz.

De acordo com os cientistas, o surgimento e disseminação da linhagem moderna do vírus da febre amarela representa uma mudança radical no padrão de dispersão da doença no continente americano e, sobretudo, no Brasil. Os dados permitiram reconstruir as rotas de migração viral de 1946 até hoje. “Até o começo da década de 1990, o Brasil desempenhava um papel central na evolução dos vírus da febre amarela nas Américas: as variantes virais das linhagens antigas surgiam principalmente na região Norte brasileira e se espalhavam para outros países. Porém, após o aparecimento da linhagem moderna, o Brasil passou de emissor a receptor de novos vírus”, ressalta Gonzalo Bello, pesquisador do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC e coordenador do estudo. A linhagem moderna surgiu provavelmente em Trinidad e Tobago, por volta de 1977. “A linhagem moderna do vírus se espalhou para diversos países, substituindo variantes virais das linhagens antigas, que circulavam no continente americano até então. Assim, todos os surtos e casos esporádicos ocorridos desde o fim da década de 1990 no Brasil, assim como na Venezuela e Argentina, foram causados por variantes dessa nova linhagem”, afirma Edson Delatorre, pós-doutorando do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC e um dos primeiros autores do artigo.

Para reconstruir a dinâmica de disseminação dos vírus, os pesquisadores analisaram as mutações no genoma viral e construíram uma árvore filogenética – similar a uma árvore genealógica, ela agrupa no mesmo ramo os vírus que compartilham um ancestral comum. O trabalho apontou que a linhagem moderna do vírus da febre amarela chegou ao Brasil por dois caminhos. Num primeiro momento, o vírus veio em uma rota sem escalas a partir de Trinidad e Tobago, no período entre 1981 e 1989. Esta primeira variante da linhagem moderna se espalhou no Brasil e foi responsável pelo surto iniciado em 2000, mas parou de circular posteriormente. Nos dois episódios seguintes, a origem dos vírus foi a Venezuela – país que, por sua vez, havia recebido a linhagem de Trinidad e Tobago entre 1981 e 1992. Os vírus que chegaram a partir dessas introduções resultaram nos surtos iniciados em 2008 e 2016.

Os pesquisadores analisaram as mutações no genoma viral e construíram uma árvore filogenética, que apontou que a linhagem moderna do vírus da febre amarela chegou ao Brasil por dois caminhos.

Diferenças genéticas entre as linhagens

Segundo os cientistas, ainda não é possível determinar por que a linhagem moderna substituiu as linhagens antigas, que circularam por décadas nas Américas. “A substituição pode ter ocorrido simplesmente porque os vírus modernos surgiram e se disseminaram em momentos oportunos. Por outro lado, não podemos afastar a possibilidade de algum tipo de vantagem competitiva, que favoreça a disseminação”, pondera Daiana Mir, também primeira autora do artigo. Ela é estudante de doutorado no Programa de Pós-graduação em Biologia Computacional e Sistemas do IOC, sob orientação de Gonzalo.

Todos os vírus modernos apresentam três mutações no genoma, quando comparados aos vírus das linhagens antigas. No conjunto dos vírus modernos, aqueles ainda mais recentes, que ocorrem na Venezuela e no Brasil, contam com três modificações adicionais, totalizando um conjunto de seis mutações. Essa característica constitui a assinatura genética dos vírus da linhagem moderna. “Geralmente, os vírus apresentam variações genéticas pontuais, que são observadas em um ou poucos casos, mas não se fixam no processo de evolução. O fato de essas seis mutações terem se fixado no genoma, indica que elas podem ter um papel importante na biologia do vírus”, afirma Edson. Segundo ele, algumas das alterações estão associadas a mudanças na composição de proteínas que podem ser significativas para a atividade viral. No entanto, novos estudos são necessários para determinar o seu impacto. “É preciso realizar testes em laboratório para avaliar o efeito da presença destas mutações no vírus. Dependendo do trecho do genoma afetado, uma única mutação pode ser suficiente para alterar a capacidade de infecção, transmissão ou replicação de um vírus”, ressalta.

Surto atual

No conjunto de 137 genomas analisados pelo estudo, dois chamam a atenção por sua singularidade: os dois isolados provenientes de macacos coletados no Espírito Santo em 2017, relacionados ao atual surto de febre amarela silvestre, apresentam mutações inéditas – o achado foi constatado por cientistas do IOC em estudo anterior. Trata-se, portanto, de dois vírus com mutações ainda mais recentes, que se somam às seis mutações.

A compreensão sobre quando e como ocorreu a introdução dessa nova variante viral, situada no conjunto dos vírus da linhagem moderna, enfrenta um desafio: existem poucos genomas sequenciados dos vírus que circularam no país nos últimos anos. “A análise dos genomas atualmente disponíveis em bancos de dados especializados revela que esses vírus com mutações inéditas não derivam dos vírus que causaram o surto anterior no território brasileiro, entre 2008 e 2009, mas seriam resultado de uma nova introdução no país a partir da Venezuela”, afirma Daiana. Ela acrescenta que há uma lacuna nos bancos de dados em relação ao período entre 2009 e 2017. “Infelizmente, os sequenciamentos genéticos geralmente são feitos apenas nos períodos de surto. Assim, para estabelecer como os vírus alcançaram a região Sudeste, será preciso analisar outros genomas referentes ao surto atual, assim como do Norte e do Centro-Oeste, que são áreas endêmicas para a febre amarela silvestre no Brasil e onde esses vírus podem ter circulado anteriormente à ocorrência no Espírito Santo”, completa.

A entrada dos vírus pelo Norte, com disseminação posterior para o Centro-Oeste até alcançar outras regiões foi observada nos episódios anteriores ao surto iniciado em 2016. Os vírus da linhagem moderna que entraram no Brasil a partir de Trinidad e Tobago entre 1981 e 1989 seguiram este caminho até serem detectados no surto iniciado em 2000, quando casos do agravo ocorreram em trechos da Bahia e São Paulo, ao mesmo tempo em que Paraná e Rio Grande do Sul tiveram infecções em animais. A mesma rota foi percorrida pelos vírus referentes ao surto iniciado em 2008. Originada na Venezuela, a variante viral chegou à região Norte entre 1999 e 2005, espalhando-se até alcançar novas áreas no estado de São Paulo, na região Sul e, até mesmo, na Argentina. A partir dos dados disponíveis, os pesquisadores estimam que os vírus relacionados ao surto atual tenham ingressado no Brasil, a partir da Venezuela, entre 2000 e 2016. Por causa do baixo número de genomas sequenciados disponíveis, o intervalo de incerteza é quase duas vezes maior do que o estabelecido para as introduções anteriores de linhagens virais no país.

De acordo com os pesquisadores, além de esclarecer os caminhos percorridos pelos vírus envolvidos no surto atual, a decodificação de mais genomas virais em circulação deve contribuir para esclarecer a origem das mutações inéditas observadas no Brasil recentemente. Uma coisa é certa: essas mutações não estão presentes nos vírus venezuelanos sequenciados até o momento.

Importância da vigilância

Os autores do trabalho ressaltam que a vigilância molecular – baseada na análise do genoma dos vírus – pode contribuir para o enfrentamento da febre amarela silvestre no Brasil. “Para esse monitoramento, não é preciso sequenciar o genoma dos vírus em todos os casos. Uma amostra deve ser suficiente para traçar um panorama da variedade genética do vírus no país. Por outro lado, essa ação não pode ficar restrita aos momentos de surto. A vigilância constante é necessária para acompanhar as linhagens em circulação e nos permite compreender melhor a origem dos surtos. Esse trabalho também é fundamental para identificar mutações genéticas que podem ter impacto na atividade viral, facilitando a preparação para o enfrentamento de situações em que possa haver uma vantagem competitiva do vírus”, comenta Gonzalo.

IOC/Fiocruz, por Maíra Menezes
Foto: Raul Santana e Gutemberg Brito

Fiocruz Amazônia lança edital para curso de especialização que será realizado em Tabatinga (AM)

Começam na terça-feira, 22/8, as inscrições para o processo seletivo do Curso de Especialização em Vigilância em Saúde na Rede de APS na Tríplice Fronteira do Alto Solimões, do Programa de Pós-Graduação Lato Sensu em Vigilância em Saúde, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).  O curso será realizado no município de Tabatinga (AM), localizado à margem esquerda do Rio Solimões, na fronteira com a Colômbia e o Peru .

Conforme o edital da Chamada Pública Nº 004/2017, estão sendo oferecidas 20 vagas. A carga horaria é de 440 horas, distribuídas em disciplinas e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que ocorrerão em 12 meses, em período integral – matutino e vespertino – em sistema modular, uma semana por mês, de segunda a sábado.

O curso é resultado de parceria com Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas (Susam), Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Amazonas (Cosems-AM), ​Assessoria de Assuntos Internacionais de Saúde do Ministério da Saúde (Aisa), Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), Organização Panamericana de Saúde(Opas), Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis – Aids do Ministério da Saúde, e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

PÚBLICO-ALVO

O curso é destinado aos profissionais de nível superior que desempenham suas funções e exerçam atividades em unidades básicas de saúde, unidades de saúde da família, ou equivalente, na microrregião do Alto Solimões.

INSCRIÇÃO   

As inscrições são feitas online e ocorrem de 22/8 a 18/9/2017. Antes de se inscrever o candidato deve ler com atenção o edital.

Dentre os documentos solicitados estão: formulário de inscrição preenchido por meio da Plataforma SIGA no endereço eletrônico www.sigals.fiocruz.br, Carteira de Identidade Civil ou Militar ou Carteira do Conselho de Classe, CPF, Diploma do curso de graduação devidamente reconhecido pelo MEC, Certidão de casamento (caso haja mudança de nome em relação o diploma de graduação), Histórico Escolar do curso superior devidamente carimbado pela instituição emitente, e  Declaração própria de que tem condições de frequentar o curso, durante os doze meses.

Após o preenchimento,  o formulário de inscrição deve ser impresso, assinado pelo candidato e encaminhado juntamente com toda documentação exigida em formato “PDF”, para o endereço eletrônico inscricaolato.ilmd@fiocruz.br

As inscrições com documentos ilegíveis, excluem o candidato do Processo Seletivo. Para esclarecimento sobre acesso ao sistema SIGA e preenchimento do formulário de inscrição podem ser solicitados através do endereço eletrônico duvidaslato.ilmd@fiocruz.br

O ILMD/Fiocruz Amazônia não concederá bolsa de estudo para os classificados.

As aulas iniciam no próximo mês de outubro e ocorrem de 23/10 a 29/10/17.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Foto divulgação

Cientistas da Fiocruz PE descobrem substância capaz de bloquear vírus zika

A descoberta de uma substância capaz de bloquear a produção do vírus zika em células epiteliais e neurais, realizada por pesquisadores do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz Pernambuco, foi divulgada recentemente, na revista International Jornal of Antimicrobial Agents. O estudo mostra a atividade antiviral da substância 6-metilmercaptopurina ribosídica (6MMPr) contra o tipo de vírus Zika que circula no Brasil.

O pesquisador Lindomar Pena, que coordena o estudo, explicou como aconteceram os testes in vitro. Utilizando em todos os ensaios células epiteliais e neurais, os cientistas introduziram o 6MMPr, experimentando diferentes tempos e dosagens.

O resultado foi a diminuição da produção de vírus zika em mais de 99%, em ambas as linhas celulares. O estudo também constatou que a 6MMPr se mostrou menos tóxica para as células neurais, o que é um bom indicativo para futuros tratamentos de infecções no sistema nervoso. “Diante das manifestações neurológicas associadas ao zika vírus e os defeitos congênitos provocados pelo mesmo, o desenvolvimento de antivirais seguros e efetivos são de extrema urgência e importância”, afirma o pesquisador.

Tendo a 6MMPr se mostrado como promissor candidato antiviral contra o vírus zika, a pesquisa segue agora para uma avaliação in vivo adicional. O estudo, que teve duração de 1 ano, contou com recursos financeiros do CNPq e da Facepe.

Para acessar o artigo The thiopurine nucleoside analogue 6-methylmercaptopurine riboside (6MMPr) effectively blocks zika virus replication, clique aqui.

Fonte: Fiocruz PB

Palestra aborda práticas de biossegurança e atividades com agentes químicos

A jornada de biossegurança do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/ Fiocruz Amazônia) encerrou nesta quarta-feira, 16/8, com a palestra “Biossegurança e atividades com agentes químicos”, ministrada pelo técnico em saúde pública do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR), Rogério de Oliveira Queiroz.

O evento visa sensibilizar, informar e orientar profissionais da instituição para a prática dos conceitos e normas de biossegurança, com o objetivo de garantir a integridade física e patrimonial e a qualidade dos resultados obtidos nas pesquisas científicas e serviços de saúde.

Segundo a coordenadora da Comissão Interna de Biossegurança do Instituo, Sônia Oliveira, a atividade é uma das estratégias de capacitação que visam diminuir riscos nas ações de pesquisa. “Nossa ideia foi fazer com que todos os alunos da instituição tivessem esse contato pessoal, e pudessem interagir com os palestrantes. É importante a participação de toda a instituição nessas atividades para a diminuição dos riscos que estamos sujeitos. A biossegurança precisa capacitar as pessoas dentro das instituições, que desenvolvem determinadas atividades de pesquisa”, explicou.

Durante a apresentação, foram abordados três eixos: Um que destaca melhor compreensão dos agentes de risco químico; A organização correta dos reagentes no laboratório, de forma segura, minimizando chances de acidentes; Abordagem sobre acidentes em atividades de laboratório envolvendo o uso de produtos químicos.

Em sua apresentação, Rogério destacou que biossegurança não é algo que envolve apenas os agentes biológicos, engloba todas as possibilidades de risco que podem ocorrer nos laboratórios. “Ao longo do tempo, a gente percebe que essa questão da segurança química é olhada de forma secundária. Estamos tentando com essas palestras, levar um pouco mais de informação e orientação para as questões de biossegurança nas atividades que envolvem o uso de produtos químicos. Precisamos olhar com mais cuidado para essa classe de riscos”, alertou.

CENTRO DE ESTUDOS

A palestra ministrada por Rogério será validada como atividade do Centro de Estudos da instituição, nesta semana. O Centro de Estudos do ILMD/Fiocruz Amazônia é um núcleo que oportuniza encontros, palestras, seminários e debates sobre diversos temas ligados à pesquisa e ao ensino para a promoção da saúde.

SOBRE O PALESTRANTE

Rogério Queiroz é mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/FIOCRUZ). Atua nas áreas de gestão e de saúde coletiva, especificamente em Gestão em Biossegurança, desenvolvendo atividades principalmente nos seguintes temas: Biossegurança, segurança química, gestão ambiental, gestão de resíduos e saúde do trabalhador.

Ascom ILMD/ Fiocruz Amazônia

Fotos e texto: Eduardo Gomes

Jornada de biossegurança aborda práticas e normas na pesquisa científica

Começou nesta terça-feira (15/8), a Jornada de Biossegurança do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/ Fiocruz Amazônia). O evento visa sensibilizar, informar e orientar profissionais da instituição para a prática dos conceitos e normas de biossegurança, para garantir a integridade física e patrimonial e a qualidade dos resultados obtidos nas pesquisas científicas e nos serviços de saúde.

Na programação estiveram inseridas as seguintes palestras: “Qualidade x Biossegurança”, ministrada pelo assessor de gestão da qualidade do ILMD/ Fiocruz Amazonas, Itapuan Abimael; “Segurança em trabalho de campo”, proferida pela pesquisadora Evelyne Mainbourg; “Atividades com gentes biológicos e níveis de biossegurança” ministrada pela pesquisadora Alessandra Nava; “EPIs e EPCs”, tendo como palestrante a pesquisadora Ani Beatriz Matsuura; “Limpeza, desinfecção e esterilização” apresentada pela pesquisadora Priscila Aquino; e “Boas práticas de laboratório”, ministrada por Michele Silva e Giovana Pinheiro, do Núcleo Técnico de Suporte à Pesquisa do Instituto.

No período da tarde, os participantes fizeram uma visita guiada aos laboratórios da instituição. A atividade é voltada para servidores, alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado, bolsistas de apoio técnico.

Entre as orientações passadas aos alunos durante o evento, foram destacados alguns cuidados quanto ao desenvolvimento de atividades nos laboratórios: Conhecer as regras para o trabalho com agente patogênico; Conhecer os riscos biológicos, químicos, radioativos, tóxicos e ergonômicos com os quais se tem contato no laboratório; Ser treinado e aprender as precauções e procedimentos de biossegurança; Seguir as regras de biossegurança; Evitar trabalhar sozinho com material infeccioso; Ser protegido por imunização apropriada quando disponível.

ATIVIDADES COM AGENTES QUÍMICOS

A programação da Jornada de biossegurança continua nesta quarta-feira (16/8), às 9h, com a palestra “Biossegurança e atividades com agentes químicos”, que será ministrada por Rogério de Oliveira Queiroz, mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/FIOCRUZ).

Atualmente, Rogério é técnico em saúde pública do Centro de Pesquisas René Rachou. Atua nas áreas de gestão e de saúde coletiva, especificamente em Gestão em Biossegurança, desenvolvendo atividades principalmente nos seguintes temas: Biossegurança, segurança química, gestão ambiental, gestão de resíduos e saúde do trabalhador.

A palestra ministrada por Rogério será convalidada como atividade do Centro de Estudos da instituição, nesta semana. O Centro de Estudos do ILMD/Fiocruz Amazônia é um núcleo que oportuniza encontros, palestras, seminários e debates sobre diversos temas ligados à pesquisa e ao ensino para a promoção da saúde.

Ascom ILMD/ Fiocruz Amazônia, por Eduardo Gomes

Estigmas associados ao transtorno bipolar é tema de pesquisa do IRR

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento da Fiocruz Minas joga luz sobre um dos distúrbios mentais mais conhecidos e discutidos na atualidade: o transtorno bipolar. O estudo, intitulado As concepções dos psiquiatras sobre o transtorno bipolar e o estigma a ele associado, teve por objetivo compreender os significados e as implicações do estigma vinculado à bipolaridade em relação aos processos sociais e sistemas de valores culturais locais.

Os pesquisadores entrevistaram psiquiatras que atuam em Belo Horizonte (MG) e, com base no referencial da Antropologia Médica, fizeram a análise das respostas.  Os resultados mostraram que, embora a bipolaridade esteja menos estigmatizada atualmente, ainda suscita questionamentos em algumas esferas da vida social, como no campo do trabalho, o que pode causar a de recusa do tratamento.

Nesta entrevista, o pesquisador Adauto Clemente, que esteve à frente do estudo, fala sobre os resultados da pesquisa e traça um panorama sobre o transtorno bipolar.

Para iniciar, o que é o transtorno bipolar? Quais seus principais sintomas?

O transtorno bipolar se caracteriza por variações do humor que chegam a interferir significativamente nas relações, nas capacidades e na qualidade de vida dos indivíduos. As variações de humor a que estamos referindo são os estados depressivos, caracterizados principalmente por abatimento do humor ou tristeza e falta de prazer, que podem ser graduados como leves, moderados ou graves; os estados maníacos, caracterizados por exaltação do humor, que consistem na hipomania (mais leve) e na mania moderada ou grave e os estados mistos, em que teremos uma mescla de sintomas de ordem depressiva e maníaca. Tais estados, além dos sintomas-chave acima descritos, também se acompanham com frequência de alterações do sono e do apetite, alterações do ânimo/vontade e de alterações do pensamento, tais como extremo pessimismo e ideias suicidas na depressão e ideias de grandiosidade e poder nos estados maníacos.

É importante frisar que as variações do humor, ou seja, estar mais ou menos animado do ponto de vista físico e/ou psíquico ao longo do tempo, constitui uma característica comum dos seres humanos e, nesse sentido, poderíamos dizer que se trata de um fenômeno normal; especialmente (mas não exclusivamente) quando podemos identificar motivadores para tais variações nas circunstâncias de vida daquele indivíduo. Por exemplo, é clara a influência que os dias mais ou menos iluminados de sol têm sobre o estado de ânimo das pessoas.

Portanto, considera-se que alguém é portador do transtorno bipolar quando a recorrência de tais variações atinge uma intensidade suficiente para que possamos enquadrá-las como episódios depressivos e maníacos/hipomaníacos. De acordo com a gravidade desses estados, frequência com que ocorrem e com a presença ou não de sintomas mistos e sintomas psicóticos, teremos a classificação do transtorno bipolar em diversos subtipos, pois a indicação do tratamento e sua eficácia pode diferir de acordo com tais características.

Trata-se de um transtorno que se manifesta em alguma fase específica da vida? Teria algum fator desencadeante? Quais os números (frequência na população) em relação a este transtorno?

O transtorno bipolar pode se manifestar em qualquer idade e o diagnóstico é habitualmente feito na fase adulta jovem. Os primeiros episódios depressivos ou maníacos costumam ser associados a alguma circunstância de vida, como mudanças do estatuto social ou perdas, porém isso não é a regra, sendo comum que os episódios subsequentes deixem de ter relação com algum desencadeante vivencial, ocorrendo sem qualquer motivo aparente. O atraso no diagnóstico é uma situação comum, especialmente quando os primeiros episódios são depressivos, pois acabam sendo reconhecidos e tratados como uma depressão comum, sem a resposta satisfatória.

Atualmente existe uma tendência a se considerar que sintomas precoces do transtorno podem se manifestar desde idades muito jovens, mesmo durante a infância ou adolescência e que, diante de uma primeira manifestação depressiva, deve-se investigar a ocorrência de tais indícios precoces para não retardar o diagnóstico do transtorno. Isso tem a relação com a pergunta sobre a frequência do transtorno bipolar. Além do estigma, dois outros aspectos sobre o transtorno bipolar foram contemplados na nossa investigação: um deles foi a evolução do próprio conceito do transtorno, cujos critérios para o diagnóstico foram sendo modificados ao longo do tempo, o que incluiu a emergência do conceito mais amplo de “espectro bipolar”, popularmente chamado de “bipolaridade”.

O outro aspecto que estudamos foi a prevalência do transtorno bipolar na população geral que tradicionalmente, girava em torno de 1%.  Porém, pudemos constatar que as pesquisas passaram a registrar porcentagens progressivamente mais altas do transtorno bipolar na população geral ao longo dos últimos 30 anos. Uma das explicações para esse aumento foi a mudança nos critérios para o diagnóstico, que se tornaram mais amplos, de modo que pessoas que anteriormente receberiam outros diagnósticos psiquiátricos, passaram a ser identificadas como portadoras do transtorno bipolar. Outra explicação possível é a melhora do reconhecimento do transtorno pelos psiquiatras e por outros profissionais de saúde graças a campanhas de conscientização e à visibilidade que o transtorno adquiriu nos últimos anos. Há outras hipóteses como a de que, por algum motivo, a prevalência do transtorno esteja realmente aumentando.

O transtorno bipolar já foi nomeado de psicose maníaco-depressiva, certo?

Não exatamente. A psicose maníaco-depressiva foi retirada das classificações psiquiátricas oficiais a partir da década de 80, ao mesmo tempo em que se adotou o conceito de transtorno bipolar, que abarcou a maior parte dos pacientes que antes receberiam o diagnóstico de psicose maníaco-depressiva. Não existe, porém, uma correspondência direta entre essas duas condições. O transtorno bipolar é um conceito mais amplo, que inclui pacientes que antes receberiam outros diagnósticos, como algumas condições anteriormente chamadas “neuróticas”. Os termos neurose e psicose perderam a centralidade no diagnóstico e adotou-se o termo “transtorno” para nomear as diversas perturbações mentais, ou seja, não houve apenas uma mudança de nome, mas no próprio conceito.

Quais seriam os principais estigmas relacionados ao transtorno bipolar?

De forma geral, principais características que os entrevistados associaram aos portadores de transtorno bipolar foram a instabilidade, a imprevisibilidade, a cronicidade e o potencial de produzir danos a si mesmo ou ao próprio patrimônio durante os estados depressivos e maníacos. Porém, o estigma a que estão sujeitos dependerá do ambiente cultural em que se inserem (por exemplo, o estigma de incapacidade é prevalente no meio laboral) e vai variar de acordo com a fase do transtorno, com o tipo e gravidade dos sintomas (súbitos ou mais persistentes, presença de sintomas psicóticos associados). Em nossa cultura, pudemos observar que os estados depressivos costumam despertar mais tolerância e empatia que as manifestações maníacas, o que é menos evidente na sociedade americana, por exemplo, em que a produtividade e o consumo são mais valorizados e as condições maníacas mais bem toleradas.

De acordo com os resultados da pesquisa, na concepção dos entrevistados, podemos dizer que os pacientes diagnosticados com transtorno bipolar são menos estigmatizados que no passado? Neste caso, a que se deve esta mudança?

Sim. Eles consideram que houve uma atenuação do estigma em relação ao passado, o pode estar relacionado a muitos fatores; mas, na percepção deles, o abandono do rótulo de “psicótico” foi determinante. A despeito disso, eles consideram que o estigma permanece muito significativo no campo do trabalho, o que frequentemente exige dos psiquiatras intervenções diretas com intenção de proteger os portadores de transtorno bipolar de discriminações que dificultam seu ingresso e a manutenção de suas posições no mercado de trabalho.

Podemos dizer que os pacientes aceitam o diagnóstico com mais naturalidade? Quais as repercussões disto no tratamento? O que é a banalização do diagnóstico apontada pelos entrevistados?

Sim, os pacientes atualmente parecem aceitar bem o diagnóstico do transtorno bipolar, mas não sabemos em que medida isso repercute no tratamento, já que nem sempre existe uma relação direta entre aceitação do diagnóstico e adesão. Além disso, vários outros fatores de ordem prática interferem na adesão ao tratamento psiquiátrico. Apesar de afirmar que os pacientes hoje em dia aceitam melhor o tratamento, os entrevistados relataram várias dificuldades na condução do tratamento como, por exemplo, o comprometimento do “insight” nas fases maníaca e depressiva.

A banalização é o fenômeno pelo qual os pacientes adotam o diagnóstico do transtorno bipolar para entender ou explicar suas experiências pessoais ou patológicas. Ao que parece, a redução do estigma teve como consequência levar a que portadores de outros transtornos mais estigmatizados se identifiquem como portadores de transtorno bipolar como estratégia para minimizar as discriminações que sofrem. Outro aspecto da banalização ocorre quando indivíduos atribuem ao saber psiquiátrico a explicação e a solução para características pessoais ou para problemas com que se deparam durante a vida e passam a demandar tratamento médico(medicalização), o que exige grande habilidade do profissional para evitar o expor esse indivíduos a intervenções médicas desnecessárias.

Houve alguma razão especial que os levou a optar por pesquisar o estigma do transtorno bipolar sob o ponto de vista do psiquiatra?

Sim, houve algumas razões. Poderíamos elencar aqui a importância de se estudar o estigma associado aos transtornos mentais, fenômeno que tem importantes repercussões sobre a vida dos portadores e que interfere no acesso e nos resultados do tratamento. O estigma relacionado ao transtorno bipolar é menos estudado e conhecido que em outros transtornos mentais.  Nas últimas décadas, desde sua inclusão nos manuais de classificação psiquiátrica, o transtorno bipolar assumiu grande importância na pesquisa e na clínica psiquiátrica e passou a ser um dos transtornos mais discutidos e conhecidos pelo público em geral. Visando conhecer e compreender as concepções sobre o transtorno bipolar e o estigma, e limitados pela burocracia e restrições de tempo, elegemos estudar os psiquiatras porque eles constituem um elo essencial entre as concepções científicas e as concepções populares sobre as questões médicas. Ao mesmo tempo, a pesquisa deste grupo, permitiu-nos reflexões mais amplas sobre como os profissionais de saúde lidam com as dificuldades reais vivenciadas por seus pacientes e como assimilam as inovações produzidas pela ciência, transformando-as e traduzindo-as em sua atividade clínica e no relacionamento com esses pacientes.

Imagem: Jessi RM/Flickr

Palestra aborda desafios para publicação em periódicos de alto impacto

Atualmente, existem milhares de periódicos científicos no mundo. Diante desse vasto universo bibliográfico, como driblar as barreiras na hora de escrever, e escolher a revista onde você vai publicar uma descoberta que acabou de fazer? A palestra desta semana do Centro de Estudos do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/ Fiocruz Amazônia), trouxe em seu título o questionamento “Como escrever e publicar artigos em revistas internacionais?”

A abordagem foi feita pela pesquisadora do Instituto Superior de Agronomia, da Universidade de Lisboa, doutora Marina Temudo. Na ocasião, a pesquisadora falou também sobre temas relacionados a suas pesquisas, desenvolvidas no campo da agronomia política e ecologia política e humana, com abordagem interdisciplinar que inclui técnicas qualitativas e quantitativas.

Para a pesquisadora, uma das principais barreiras na hora de escrever para revistas internacionais é o domínio da escrita em inglês. “Penso que o maior problema não só dos brasileiros, mas também dos portugueses é a escrita em inglês, não só pelo domínio da língua inglesa, mas também pelo estilo de escrita em português ser muito rebuscado, com períodos muito longos. Mesmo quando a pessoa escreve em português e manda traduzir, se não fizerem um esforço de simplificar a redação antes de tradução, o tradutor não vai conseguir traduzir aquilo bem, transformando o conteúdo em algo sem sentido”, destacou.

Segundo Marina Temudo, outra dificuldade é a escolha da revista. “Temos de ser muito criteriosos, pois perdemos muito tempo para encontrar as revistas que se adequam a cada um dos temas que estamos trabalhando. Precisamos ler a revista, saber qual é o público preferencial dessa revista e suas respectivas áreas disciplinares”, explicou.

IMPACTO DE PUBLICAÇÔES

Outro fator que merece atenção dos pesquisadores são os Rankings internacionais, que avaliam o impacto de publicações científicas com base no número de vezes que seus artigos são citados em textos de outros periódicos. Publicar estudos relevantes o suficiente para conseguir um número grande de menções é uma das metas dos autores e das revistas.

ESTRATÉGIAS

Para a escolha da revista, a pesquisadora destacou as seguintes dicas: Saber a experiência de colegas que escrevem para essa revista; Ler muitos artigos publicados na revista escolhida, para conhecer o público; Conhecer o estilo de redação dos artigos; Estar atento as regras do periódico: dimensão, enfoque, estilo, nível de detalhe exigido, citação.

Antes de submeter o artigo, ela sugere que colegas, da mesma área e de outras, possam ler e contribuir com críticas. Mariana também pontua que é importante afinar o título para ser sintético e agarrar os leitores, verificar se o resumo descreve bem o argumento e as principais conclusões, conferir se o argumento está claro e se as secções estão bem ligadas umas às outras por um fio condutor, além de examinar se as conclusões estão bem relacionadas com o argumento, se dialogam com a literatura teórica, e principalmente se respondem às perguntas formuladas na primeira secção do artigo.

Sobre os entraves para publicar nas revistas de alto impacto, Mariana destacou que é importante não desistir. “Publicar um artigo em uma boa revista não é um Sprint, é uma maratona. Se temos confiança de que nosso artigo é bom devemos continuar a tentar publicar das boas revistas, pois essas revistas é que vão valorizar o nosso trabalho. Uma má revista possui milhares de publicações, podemos conseguir publicar nessas revistas, mas é um tiro em falso que estamos dando. Quando temos a certeza de que nosso trabalho é bom, devemos continuar até conseguir publicar em uma revista de alto impacto”, enfatizou.

CENTRO DE ESTUDOS

O Centro de Estudos do ILMD/Fiocruz Amazônia é um núcleo que oportuniza encontros, palestras, seminários e debates sobre diversos temas ligados à pesquisa e ao ensino para a promoção da saúde. Os eventos ocorrem às sextas-feiras e deles podem participar estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, professores e trabalhadores da área da Saúde. A entrada é franca.

ILMD/ Fiocruz Amazônia, por Eduardo Gomes

Câmara homenageia Oswaldo Cruz em sessão solene

Um projeto de lei tornando a Fiocruz “patrimônio nacional da Saúde Pública” foi apresentado pelo deputado Odorico Monteiro (PSB-CE) durante sessão solene em homenagem aos cem anos da morte do sanitarista Oswaldo Cruz, realizada na manhã de 9 de agosto no plenário da Câmara dos Deputados. A proposta de projeto de lei prevê a concessão do título para instituições com mais de 70 anos de atuação no campo da Saúde Pública, ao mesmo tempo em que o concede à Fiocruz. O parlamentar cearense também é responsável pelo requerimento para realização da sessão.

O Hino Nacional tocado pelo saxofonista Leopoldo Crisostómo marcou a abertura da sessão, onde, por mais de três horas, os feitos do sanitarista Oswaldo Cruz – ações de combate e controle da febre amarela, da peste bubônica, criação do Instituto Soroterápico Federal, dentre outras tantas – foram relembradas por parlamentares, cientistas, ex-ministros da saúde e convidados. Na mesa solene, o deputado Odorico Monteiro, o senador Humberto Costa (PT-PE), o ministro da Saúde, Ricardo Barros, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu Moreira, a representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) no Brasil, Maria Dolores Perez, o representante do Conselho Superior da Fiocruz, Pedro Tauil, e o representante do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Jurandir Frutuoso. Na plateia, os ex-ministros da Saúde, José Temporão, José Agenor Alvarez, Alceni Guerra e o deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG).

Anunciando-se um “orgulhoso” servidor da Fiocruz, Odorico Monteiro destacou que a frase do sanitarista “Não esmorecer para não desmerecer” é lema a ser seguido, sobretudo, “em tempos difíceis como o atual”. Relatou ações da instituição em diversos campos do conhecimento, destacando o papel transformador da educação, lembrou os 26 cursos de mestrado e doutorado da Fiocruz. A capacidade de produzir 500 milhões de doses de vacina foi citada assim como a advertência “no século 20, o Brasil perdeu a tecnologia da química fina e estamos prestes a perder a janela de oportunidade dos biológicos. Penso que a Fiocruz tem um papel importante para reduzir essa dependência”.

O ministro da Saúde, Ricardo Barros, historiou a trajetória de Oswaldo Cruz e disse estar “administrando o Ministério da Saúde com muita energia e coragem para fazer as mudanças necessárias” e informou que irá propor um novo modelo de financiamento do SUS, o qual privilegiará a saúde e não a doença, e gerará uma economia de R$ 50 bilhões. Tais alterações estão sendo pactuadas na tripartite. Tão logo falou, o Ministro deixou a sessão alegando compromisso.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, e o deputado Odorico Monteiro na abertura oficial de mostra sobre Oswaldo Cruz. Foto: Edilson Rodrigues.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, passeou rapidamente pela trajetória histórica da instituição destacando, dentre outros, a participação ativa na reforma sanitária e a articulação do processo produtivo da saúde. Falou de desafios do presente e projeções para o futuro. Dentre eles, o fortalecimento da Fiocruz na articulação do sistema de ciência, tecnologia e inovação nas dimensões regional, nacional e global, preparar a instituição para a quarta revolução tecnológica (internet das coisas, medicina personalizada como estratégia de saúde pública), a educação permanente, sistemas inteligentes e preditivos na vigilância, atenção e promoção da saúde, e outras. Destacou o compromisso da instituição com o desenvolvimento sustentável, com a redução das assimetrias territoriais e regionais, nacionais e globais, em uma sociedade de conhecimento inclusiva e voltada para o cidadão.

“Meu avô deve estar dando voltas na tumba”, afirmou Vera H. Oswaldo Cruz, neta do fundador da Fiocruz. Veemente observou que, passado um século, o Brasil tem dengue, zika, chikungunya e “pasmem, a febre amarela!”. Rogou aos parlamentares que façam emendas a favor da saúde, bradando pelo cumprimento do preceito constitucional “saúde é direito de todos e dever do estado”. Disse estar na hora de arregaçar as mangas, deixar de lado discussões se mosquito é municipal, estadual ou federal e trabalhar muito. Observou que o maior legado da Fiocruz é ousar, buscar o novo, e que seu maior tesouro é a diversidade.

Pedro Tauil, integrante do Conselho Superior da Fiocruz, falou da importância histórica da Fiocruz no combate de doenças, nas campanhas e na produção de vacinas e na formação de profissionais para a saúde. Humberto Costa, ex- ministro da Saúde, destacou a monumental trajetória de conquistas da instituição.

Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, citou pesquisa da instituição que mostra ser Oswaldo Cruz e a Fiocruz, respectivamente, o cientista e a instituição científica mais conhecidos do pais. Falou do quadro difícil que enfrentam as instituições de pesquisa, alegando que os cortes e contingenciamento adotados pelo governo ameaçam fortemente o futuro do Brasil.

A representante adjunta da Opas/OMS no Brasil, Maria Dolores Perez-Rosales, disse que “a Opas se sente honrada em ter a fundação que leva o nome de Oswaldo Cruz [Fiocruz] como um Centro Colaborador para Políticas Farmacêuticas, para Educação de Técnicos de Saúde, para Saúde Pública e Ambiental, para Leptospirose e para Saúde Global e Cooperação Sul-Sul. Nossas instituições são parceiras há vários anos. Essa colaboração nos permite desenvolver ações que beneficiam milhões ou até mesmo bilhões de pessoas”.

Pela tribuna do plenário da Câmara dos Deputados, passaram diversos deputados, que destacaram a importância de Oswaldo Cruz e a fundação que criou, a exemplo de Raquel Muniz (PSDB-MG), Chico d’Ângelo (PT-RJ), Jandira Fegalli (PCdoB-RJ), Saraiva Felipe (PMDB-MG), Mandeta (DEM-MS), Lindbergh Faria (PT-RJ), Carmen Zanotto(PPS-SC), Jorge Solla (PT-BA) e Pollyana Gama (PPS-SP). Justa Helena, presidente da Asfoc, e Gerson Campos, da Associação dos Pós-graduandos da Fiocruz, também ocuparam a tribuna.

Finda a sessão, foi aberta oficialmente a mostra Oswaldo Cruz: ciência e saúde no projeto nacional, que ocupará até 17 de agosto, o corredor de acesso ao Plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília.

Fiocruz Brasília, por Valéria Padrão

Simpósio municipal discute Plantas Medicinais e Fitoterápicos

Iniciou ontem, 9/8, o I Simpósio Municipal de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, evento vinculado à III Semana Municipal de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, e organizado pela Comissão Executiva da Gerência de Assistência Farmacêutica da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa), em conjunto com a comissão científica da qual fazem parte  representantes da Prefeitura Municipal de Manaus, da Semsa, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),   da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)  e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A abertura do simpósio ocorreu no auditório Belarmino Lins, da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas. Na ocasião Lubélia Sá Freire, subsecretária Municipal de Saúde de Manaus, defendeu a permanência de políticas públicas que garantam a produção e distribuição de plantas medicinais e fitoterápicos.

Sérgio Luz, diretor do Instituto Leônidas & Maria Deane  (ILMD/Fiocruz Amazônia), lembrou que há muito que se caminhar para a produção desses medicamentos no Amazonas, daí a importância da formação de parcerias institucionais  que possam ampliar à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Além disso, o desenvolvimento dessa cadeia produtiva, pode promover o uso sustentável da biodiversidade regional.

A mesa de abertura do Simpósio foi composta por Kátia Torres, do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (DAF/SCTIE/MS); por Celso Paulo de Azevedo, pesquisador, Chefe Geral da Embrapa Amazônia Ocidental; Glauco Kruze Villas Bôas, Coordenador do Curso de Pós graduação Lato sensu “Gestão da Inovação em Medicamentos da Biodiversidade modalidade (EAD – ENSP-Farmanguinhos-Fiocruz), coordenador do sistema nacional de redes do conhecimento voltado para a inovação em medicamentos da biodiversidade (RedesFito); por Débora Ohana, Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF/Ufam); Sérgio Luz; e Lúbelia Sá Freire.

O Simpósio tem como objetivo proporcionar a atualização de conhecimentos, com compartilhamento de saberes e valorização dos aspectos culturais locais, de forma a sensibilizar e mobilizar a sociedade para a implementação e manutenção, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS, de ações que visem  promoção do uso de plantas medicinais e fitoterápicos, em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPICS) e da Política Nacional e do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PPNPMF).

O evento será realizado até o dia 11/8. Confira aqui a programação.

ILMD/Fiocruz Amazônia, por Marlúcia Seixas
Fotos: Eduardo Gomes

Estudo sequencia genoma do vírus zika encontrado em Culex

Profissionais da Fiocruz Pernambuco isolaram e sequenciaram, de forma inédita no mundo, o genoma do vírus zika coletado no organismo de mosquitos do gênero Culex. Também pela primeira vez, foi fotografada, por meio de microscopia eletrônica, a formação de partículas virais na glândula salivar do inseto. Essas conquistas, obtidas com o uso exclusivo das plataformas tecnológicas da Fiocruz Pernambuco, estão descritas no artigo Zika virus replication in the mosquito Culex quinquefasciatus in Brazil, publicado nesta quarta-feira (9/8) na revista Emerging microbes & infections, do grupo Nature.

A equipe do Departamento de Entomologia da instituição detectou a presença do vírus em amostras naturais de Culex colhidas na Região Metropolitana do Recife e também comprovou em laboratório que esse vírus consegue se replicar no interior do mosquito e alcançar a glândula salivar. Utilizando cartões especiais para a coleta, foi comprovada a presença de partículas do vírus na saliva dos mosquitos, o que indica a possibilidade de transmissão ao picar uma pessoa. Para a coordenadora do estudo, Constância Ayres, o artigo demonstra, “de diversas formas diferentes”, a possibilidade do Culex ser um dos vetores do vírus zika na cidade.

O pesquisador Gabriel Wallau, que também integra a equipe, considera que esse artigo vem mostrar, “com dados consistentes”, que o zika consegue se replicar dentro do organismo de Culex e que existem mosquitos dessa espécie infectados no campo. Responsável pelo sequenciamento do genoma, Gabriel explica que a cepa do vírus isolada de dois pools (grupos) de C. quinquefasciatus é semelhante à que foi previamente sequenciada, a partir de amostras humanas, pela equipe do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz Pernambuco, em parceria com pesquisadores da Universidade de Glasgow (com artigo publicado na revista PLoS Neglected Tropical Diseases em outubro de 2016). Ele destaca que o ineditismo de agora reside no fato do vírus ter sido obtido de amostras de mosquito.

Para Gabriel, essa semelhança era esperada, pois trata-se de uma linhagem de vírus que estava circulando no estado. Mas o fato de terem sido encontradas mutações nas amostras corrobora a metodologia utilizada nas análises, mostrando que não houve contaminação no laboratório. O pesquisador explica que os vírus de RNA de fita simples, como o zika, têm uma altíssima taxa de mutação e que já existem trabalhos na literatura científica reportando que a simples replicação desses vírus dentro do organismo, humano ou do mosquito, gera novas mutações.

Os resultados encontrados estão servindo de base para o início de novos estudos. De um lado, na verificação das mutações presentes nos genomas e se elas influenciam na capacidade de replicação do vírus no organismo do mosquito. Por outro lado, agora que estabeleceu a competência do Culex quinquefasciatus como vetor do zika, o grupo parte para estudar a sua capacidade vetorial, ou seja, será analisado o conjunto de suas características fisiológicas e comportamentais, no ambiente natural, para entender o papel e a importância dessa espécie na transmissão do vírus zika.

MAIS DETALHES DA PESQUISA

O estudo foi conduzido pela Fiocruz Pernambuco na Região Metropolitana do Recife, onde a população do Culex quinquefasciatus é cerca de vinte vezes maior do que a população de Aedes aegypti. Os resultados da pesquisa de campo apresentados no artigo mostram a presença de Culex quinquefasciatus infectados naturalmente pelo vírus zika em três pools (grupos) de mosquitos Culex (de um total de 270 pools) e dois pools de Aedes (de um total de 117). Em duas dessas amostras os mosquitos não estavam alimentados, demonstrando que o vírus estava disseminado no organismo do inseto e não em uma alimentação recente num hospedeiro infectado. O vírus foi isolado dessas amostras e seu genoma foi sequenciado.

Na etapa de laboratório, com o objetivo de investigar a competência vetorial das espécies Culex quinquefasciatus e Aedes aegypti, os mosquitos foram alimentados com uma mistura de sangue e vírus, permitindo o acompanhamento do processo de replicação do patógeno dentro do inseto. Foram realizadas duas infecções de mosquitos, cada infecção com duas concentrações de vírus diferente (104 e 106). A menor simula a condição de viremia de um paciente real. Depois os mosquitos foram coletados em diferentes momentos: no tempo zero (logo após a infecção), três dias, sete dias e 15 dias após a infecção pelo vírus.

Um grupo controle, com mosquitos alimentados com sangue sem o vírus, também foi mantido. Cada mosquito foi dissecado para a extração do intestino e da glândula salivar, tecidos que representam barreiras ao desenvolvimento do vírus. Se a espécie não é vetor, em determinado momento o desenvolvimento do vírus é bloqueado pelo organismo do mosquito. No entanto, se ela é vetor, a replicação do vírus acontece, dissemina no corpo do inseto e acaba infectando a glândula salivar, a partir da qual poderá ser transmitido para outros hospedeiros durante a alimentação sanguínea, pela liberação de saliva contendo vírus. Segundo Constância, a partir do terceiro dia após a alimentação artificial, já foi possível detectar a presença do vírus nas glândulas salivares das duas espécies de mosquito investigadas. Após sete dias, foi observado o pico de infecção nessas glândulas.

Além da detecção do vírus nesses tecidos (intestino e glândula salivar), foram investigadas amostras de saliva expelida pelos mosquitos infectados. A carga viral encontrada nas duas espécies estudadas (Aedes aegypti e Culex quinquefasciatus) foi similar.

Fiocruz Pernambuco, por Solange Argenta 

Fonte: AFN